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Campanhas Internacionais

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Sobre a Multinacional Bacardí-Martini

Os dados a seguir têm como objectivo divulgar o trabalho de autoria do jornalista Hernando Calvo Ospina, editado em livro pela Red de Consumo Solidário, Madrid: Bacardí - A Guerra Oculta.

Optou-se por uma apresentação cronológica, mais didáctica, que não foi o critério utilizado pelo autor, tendo em conta um público potencial interessado em conhecer a versão não oficial das relações EUA-Cuba.

1862

Fundação da Bacardi, em Santiago de Cuba. Foi criada por cidadãos de origem catalã e francesa.

 

1898

Cuba estava perto da sua independência do império colonial espanhol, quando os Estados Unidos se juntaram à guerra. Espanha é derrotada e em 1901 a ilha passa à condição de protectorado dos EUA.

 

Há indicações de que durante os primeiros anos deste novo período a Bacardí foi das poucas empresas locais que se beneficiou economicamente da condição semi-colonial de Cuba.

 

1952

Fulgêncio Batista dá o golpe de Estado a Prío Socarrás, contando com o apoio da máfia dos EUA e a conivência do governo. Neste período, Cuba era considerado um dos primeiros centros de delinquência mundial, incluindo o tráfico de heroína e cocaína.

 

1957

Um grupo de estudantes universitários armados tentaram, sem êxito, assaltar o Palácio Presidencial. Muitos dos jovens morreram durante a operação e outros foram selvaticamente assassinados dias depois.

 

José Pepín Bosch, Presidente da Bacardí, discordou das medidas tomadas por Batista, afastando-se do país por temer represálias.

 

Ao regressar, o chefe da Bacardí tinha consumado o registo mundial da marca em Bahamas. Desde esta época, grande parte dos seus movimentos financeiros são desconhecidos, não só em função deste paraíso fiscal como o de Bermuda, onde está a sede da multinacional registada como Bacardí Limited.

 

Cuba, entretanto, ficou a ser o país onde era produzido o mel de alta qualidade, com o qual elaborava toda a linha do rum, e onde estava a principal destilaria como imagem de marketing para as vendas, sendo considerada sinónimo mundial de bom rum.

 

Esta situação permaneceu até a Revolução Cubana de 1959 e a posterior nacionalização da empresa em 1960.

 

1958

O Embaixador Earl Smith, dos EUA, visitou o ditador Batista pedindo-lhe que abandonasse o poder e saísse do país. Antes, porém, deveria instalar uma junta com a responsabilidade de preparar eleições. Smith apresentava, então, os nomes dos eleitos, entre eles, José Pepín Bosch.

 

Como o processo da guerra revolucionária era imparável, a perspectiva de afastar Batista poderia acalmar os ânimos.

 

1959

A guerrilha revolucionária assume o poder em Janeiro. Pensava-se, entretanto, que a primeira viagem de Fidel aos EUA, em Abril deste ano, seria uma demonstração de habilidade política, no sentido de ganhar prestígio quer nos EUA quer na América Latina.

 

Seria acompanhado por uma delegação de alto nível económico, como Filipe Pazos (Presidente da Banca Nacional), ilustres representantes industriais de Cuba, como Pepín Bosch e Daniel Bacardí.

 

Em Maio são decretadas as primeiras medidas que contemplam a reforma agrária. A burguesia cubana, o governo dos EUA e a máfia se dariam conta que as promessas dos revolucionários eram para cumprir.

 

1960

São aprovadas leis que outorgavam poderes ao Presidente e ao Primeiro-Ministro de Cuba para nacionalizar propriedades, nacionais ou estrangeiras.

 

Entretanto, a lei nº 851- Artigo 5º, estabelecia claramente o direito aos expropriados a receber compensação económica, para a qual criaram o Bónus da República, por um prazo de trinta anos, através de um Fundo Especial no Banco Nacional.

 

Este fundo era necessário porque as finanças da nação tinham sido esvaziadas e transferidas para os EUA pelos antigos proprietários. A lei previa que o Fundo Especial seria formado com 25 por cento da venda de açúcar aos EUA.

 

A concretização do fundo foi impossível, já que os EUA deixaram de comprar o produto.


 

1962

Em Julho, o Presidente Kennedy instaura oficialmente o bloqueio económico, comercial e financeiro a Cuba.

  

Neste mesmo mês foi decretada a nacionalização da empresa Bacardí. Entretanto, grande parte do capital e bens da família já estavam em outros países.

 

O quadro em que estava inserida a Revolução Cubana demonstrava que a economia estatizada em França e Inglaterra era somente superada pela União Soviética e demais países do bloco socialista da Europa, onde os sectores estratégicos estavam nacionalizados.

 

Seguiram-se várias tentativas de invasão e ataques terroristas a Cuba, levados a cabo pelos EUA através da CIA e do grupo Bacardí.

 

Entre as várias acções constam: 

- A tentativa de bombardeamento das refinarias de petróleo por mercenários cubanos que trabalhavam para a CIA (1959). Em meados dos anos 60, José Pepín Bosch tenta reactivar o plano, novamente sem êxito, já que a acção foi descoberta e retratada na 2ª página do New York Times. 

- Tentativa de invasão da Baía dos Porcos. Um fiasco e humilhação para a Brigada 2506. Seguiu-se a preparação de outra invasão, que se pretendia contundente (1961).

 

1962

Crise dos Mísseis: perante as constantes ameaças Cuba pede apoio à União Soviética para ser dotada de armamento pesado. Os EUA alegam que estavam a ser instaladas armas nucleares em Cuba. A URSS faz os EUA comprometerem-se a não invadir Cuba.

 

1964

Nasce em Miami a RECE - Representação Cubana no Exílio - organização paramilitar cujos objectivos eram preparar a invasão a Cuba e ataques terroristas a aldeias e a organizações que tinham relações comerciais com o país.

 

Foi criada pelo Presidente da Bacardí, José Pepin Bosch e a CIA. O financiamento era proveniente das duas organizações e de particulares.

 

Alguns activistas: Orlando Bosch (narcotraficante e assessor de Pinochet); Tony Calatay (militar responsável intelectual dos atentados de Madrid e Paris); Jorge Mas Canosa (chefe de propaganda e posterior presidente da Fundação Nacional Cubano Americana); Erneido Oliva (chefe militar e posterior general do exército dos EUA); Luis Posadas Carriles (narcotraficante, assessor da polícia da Venezuela e responsável pelos atentados a Cuba em fins dos anos 90). Este último, considerado um dos mais sangrentos terroristas do ocidente.

 

1975

Foi conhecido por investigadores do Congresso dos EUA o plano da CIA para assassinar Fidel, Raúl Castro e Che Guevara. Foi tornado público apenas em 1998. Ficaram, então, conhecidos os nomes dos diversos elementos da máfia envolvidos, com o financiamento do chefe da Bacardí (J.P.B.).

 

1981

Nasce em plena administração Reagan a FNCA - Fundação Nacional Cubano Americana. Uma associação sem fins lucrativos livre de impostos e com propósitos científicos, educativos e caritativos. Esta superestrutura moderna tenta limpar a imagem pública já deteriorada da RECE, relacionada com o tráfico de drogas.

Objectivos da FNCA: organização da Extrema-direita, com o propósito de servir à política exterior dos EUA, em especial na América Central, apoiando os Contras anti-sandinistas, a UNITA em Angola, o golpe de Estado no Chile; o caminho para a ditadura no Brasil e a desestabilização de Cuba.
 

Alguns dos accionistas e/ou directores da Bacardí associados da FNCA e membros fundadores: José Pepín Bosch; Emilio e Gloria Estefan; Manuel Cutilas; José Bacardí; Ana Bacardí; Ana Cutillas e outros. A família/empresa foi a mais numerosa na participação e financiamento da FNCA.

 

1983

A aliança da Extrema-Direita Cubana com a administração Reagan é totalmente consolidada em Janeiro deste ano, com a criação do Projecto Democracia.

Este contou com duas vertentes: uma, de carácter militar e clandestino, supervisionada pelo Congresso dos EUA. A segunda, com carácter público, ligada à cúpula de operações especiais da CIA. Esta foi chamada Fundo Nacional para a Democracia (NED, em inglês), sendo uma corporação sem fins lucrativos e não governamental. Isto, apesar de seus fundos serem aprovados a nível federal e com a conivência do Congresso.

 

A NED era o instrumento preferido de intervenção política dos EUA, assumindo as tarefas que até o momento eram realizadas de uma forma encoberta pela CIA: penetrar nas organizações da chamada sociedade civil, com sofisticados projectos de médio e longo prazo.

 

Segundo o investigador Galton Fonzi, a FNCA recebeu da NED vários milhões de dólares nas administrações Regan e Busch, destinados a financiar actividades na América Central, com ênfase na Nicarágua, durante a jovem Revolução Popular Sandinista.

 

Sobre este tema, há um trabalho de referência incontestável que descreve a participação dos contra revolucionários cubanos no tráfico de drogas durante a guerra anti-sandinista. Os nomes de Posada Carilles e Orlando Bosch constam como contribuintes económicos às organizações terroristas, como a CORU e FLNC, na sombra das quais esteve a RECE (Scott, Peter Dale e Marshall, Jonathan: Cocaine Politics. Drugs, Armies and the CIA in Central America, University of California Press, Berkeley, Los Angeles, Oxford, 1991).


Até aos anos 90 a FNCA não se preocupou em ocultar o seu papel de apoiante incondicional da política externa dos EUA: Concordamos inteiramente com a Iniciativa do Presidente Reagan de apoiar moral e materialmente os combatentes da liberdade em Cuba, Afeganistão, Etiópia, Cambodja, Nicarágua, Angola e outros países. (Logros da FNCA. Ajuda aos Combatentes pela Liberdade, Miami Herald - anúncio pago - Miami, 20 de Maio de 1986).

 

1989

Prevê-se o fim do Bloco Socialista Europeu. Uma delegação da FNCA se reúne com Andrei Kozyrev, novo ministro das Relações Exteriores da chamada Rússia. Foi anunciado o fim dos subsídios a Cuba, assumindo, assim, uma relação estritamente comercial - comprar e vender a preços de mercado -  acelerar o retiro das tropas e votar contra Cuba em Genebra.

 

Cuba entra num período de escassez comercial comparável ao do fim da Segunda Guerra Mundial, vivido por vários países europeus.

  

1991

Em finais de 1991 tudo estava preparado para a queda do regime cubano. Sem o apoio dos antigos parceiros comerciais do ex-Bloco Socialista nada poderia salvá-lo.

 

Em Miami, os múltiplos líderes das organizações contra-revolucionárias disputavam publicamente a atribuição dos postos governamentais, a começar pela presidência.

 

Para tal, foi criada a Comissão Especial para a reconstrução Económica de Cuba (Blue Ribbon Commission on The Economic Reconstruction of Cuca). Era outro apêndice da FNCA, tendo todas as condições a seu favor para se apoderar do controlo político numa Cuba pós-revolucionária, inclusive a aceitação do governo norte-americano.

 

O lançamento da comissão teve como base um projecto de transição política e económica. O objectivo era reunir informação sobre os sectores chave da economia da Ilha, formulando estratégias macroeconómicas que culminariam com a implantação de uma economia de mercado livre, com contornos neoliberais.

 

Os novos governantes, num período previsto de dois anos, deveriam vender todos os activos públicos. A privatização permitiria às companhias estrangeiras apoderar-se de 80% das acções, independentemente do sector económico. Era uma espécie de liquidação com carácter de oferta.

 

Em pouco tempo a Comissão captou importantes multinacionais. Estas, segundo o plano, tinham preferência no processo das privatizações por terem apoiado o projecto desde os primeiros momentos. As empresas eram: Bell South, Coca-Cola, General Sugar, Chiquita e, logicamente, a Bacardí.

 

Neste mesmo ano, durante o Congresso Hemisférico das Câmaras de Comércio e Indústrias Latinas, Juan Grau, presidente da Bacardí Import Inc. foi reconhecido como o Industrial do Ano. No seu discurso assinalou que o livre comércio nas nações do continente americano é vital para a ordem mundial, que tem como base o princípio vulnerável do laissez faire, que mais ou menos se traduz: quando estamos a comprar e vender os governos não devem meter as mãos.

 

Quando se referiu à ALCA - Acordo de Livre Comércio - entre México, Canadá e EUA, disse que: será o modelo para a futura integração económica do resto da América Latina.


O texto final da Declaração de Princípios do Congresso previa para 1992 uma Cuba Livre, assumindo o conceito de comércio internacional. Apoiava, ainda, a necessidade de privatizar todas as empresas estatais em Cuba e na América Latina, respaldando a Iniciativa para as Américas, proposta pelo presidente George Busch.

 

Este modelo tem como base o neoliberalismo que se alastrou desde o derrube do socialismo da Europa Oriental.

 

1993

A empresa cubana Havana Rum and Licours e a sociedade francesa Pernod-Ricard fizeram um acordo comercial do tipo Joint Venture - capital 50% e riscos repartidos - para comercializar o rum Havana Club. A frágil economia cubana tinha no investimento estrangeiro uma importante fonte de recursos que ajudaria a obter as divisas necessárias.

 

A condição de venda de um produto genuinamente cubano somada à experiência de mercado da multinacional francesa, levou o Havana Club a aumentar vertiginosamente as suas vendas, a partir de 1994, retirando clientela ao Bacardí.

 

O rum Bacardí é um produto sem pátria. O açúcar provém de canas cultivadas em várias partes do Caribe, Brasil, México ou Florida, com solos e condições climatéricas distintas, o que coloca em causa a sua personalidade e qualidade. É dos poucos licores nesta condição.

 

Antes de 1994 Bacardí não tinha um concorrente de risco, já que Cuba concentrava-se na distribuição do rum nos países do bloco socialista da Europa. Em 1998 o Havana Club situou-se entre as três marcas de maior protagonismo no mundo.

 

Bacardí, entretanto, percebeu que o seu sucesso se devia ao facto da sua origem ser cem por cento cubana. Desde então, a publicidade da Bacardí passou a revelar um lirismo sobre os anos 50 em Cuba, com belas mulheres, homens charmosos, casinos elegantes. Clubes nocturnos com glamour e coristas do tempo em que La Habana era o casino e bordel de uma elite corrupta de empresários norte-americanos e da máfia, que dominavam a economia cubana.

 

A origem do açúcar, entretanto, deixou praticamente de ser mencionada nas etiquetas dos produtos desde meados dos anos 90.

 

Em Novembro deste ano foi criado o Conselho de Negócios EUA-Cuba (US-Cuba Business Council), cujos objectivos eram idênticos aos da Comissão Especial para a Reconstrução de Cuba e da FNCA, à excepção de uma aparente alteração nos critérios de privatização, que tinham originado grande polémica entre os vários cubanos residentes nos EUA e Europa.

 

Esta organização sem fins lucrativos era formada por indivíduos basicamente de nacionalidade norte-americana, com experiências diplomáticas e políticas significativas, tanto a nível internacional como empresarial, além de uma ampla rede de consultores e especialistas nos temas relacionados com o desenvolvimento empresarial em Cuba.

 

A orientação do Concelho era: a partir de uma base estritamente política, neutral, se deve promover a cooperação entre as organizações comerciais, cívicas e profissionais, que compartem os nossos objectivos de democracia e economia de mercado para Cuba (...). No caso da recuperação das relações entre EUA e Cuba e segundo o estabelecido nas leis dos EUA e as futuras regulamentações com Cuba, o Conselho acelerará as suas actividades no sentido de atrair investimentos privados, apoiar a reconstrução económica, assim como educar os cubanos sobre as vantagens do mercado livre (...).

 

Esta proposta é para Cuba muito semelhante à situação que está instalada em Porto Rico, uma condição de semi-colónia.

 

Como já se pode prever, eis algumas das empresas que integram o Conselho: Bacardí, Kelley Drye and Warren, Chiquita, Coca-Cola, Colgate Palmolive, Ford Motor, General Motors, Miami Herald, Pepsi-Cola, Texaco, Amstar, etc..

 

1994

A Bacardí-Martini apresentou à entidade responsável pelas marcas e patentes dos EUA um pedido de registo para seis marcas, todas contendo o nome Havana. Só foi permitido registar uma, a Little Havana, já que o resto traria confusão ao consumidor, que certamente pensaria estar a comprar um produto de origem cubana. No mesmo ano, a filial de Bahamas tentou registar nos EUA a marca Havana Club. A tentativa foi recusada.

 

1996

A sociedade Havana Club Holding processou a Bacardí por fraude, usurpação da marca e engano ao consumidor. Neste ano, um rum falsificado, produzido nas Bahamas, foi distribuído e vendido nos EUA com o nome de Havana Club.

 

O império Bacardí tentou novamente utilizar um nome comercial que nunca lhe pertenceu, registado pela empresa cubana Cubaexport em 1974, após o abandono da marca pelo titular original, passando ao que se conhece como domínio público. Esta marca foi registada em 80 países, inclusive nos EUA.

 

Recorde-se que em 1995 surgiu a ideia infundada de que o presidente Clinton iria levantar o bloqueio a Cuba. Assim, seria permitida a entrada do Havana Club, o que traria sérios problemas à multinacional Bacardí, dona de 50% do mercado norte-americano.

 

O acto de pirataria por parte da Bacardí não era esperado, vindo de uma empresa de prestígio, principalmente colocando em causa os interesses de outra poderosa transnacional de bebidas, a Pernod-Ricard.

 

Em 12 de Março Clinton ratifica a lei para a Liberdade e Solidariedade Democrática de Cuba, mais conhecida como lei Helms-Burton, cujos principais legisladores foram Jesse Helms e Dan Burton.

 

Principais títulos:

I e II - descrevem como deve proceder a nação cubana para que os EUA a definam como democrática e, assim, possam voltar a ter relações normais.

 

Em resumo, dizem que se deve abrir todos os espaços às dissidências internas, que receberão o apoio e financiamento de Washington, para além do que já recebiam. Devem desaparecer os dirigentes políticos, o Partido Comunista, as organizações de base e tudo o que esteja relacionado com o actual governo. Neste momento, começaria a etapa de transição, que pode durar todos os anos que necessite, no sentido de implementar um novo tipo de Estado e sociedade, ao gosto do presidente dos EUA, pois só este decidirá se a democracia finalmente chegou a Cuba.

 

Isto acontecerá quando o presidente dos EUA, através das pessoas da sua confiança comprometidas com a transição tiver a certeza de que todas as empresas e cidadãos receberam a indemnização pelas propriedades nacionalizadas, incluindo os magnatas cubanos.

 

III - Adverte que será declarado traficante aquele que venda, transfira, distribua, reparta, troque, administre uma propriedade confiscada, ou compre, arrende, receba, controle, administre, use ou adquira de outro modo uma propriedade confiscada ou se beneficie desta. O termo traficante é utilizado internacionalmente para uma actividade de delinquência comum.

 

Como traficantes serão levados às cortes dos EUA pelas entidades ou pessoas cujas propriedades forem ilegalmente confiscadas.

Entretanto, segundo os acordos internacionais ainda vigentes, que incluem a adesão dos EUA, as propriedades confiscadas e nacionalizadas em cuba foram realizadas em acto próprio de um Estado de direito. A tal ponto que diversas companhias e cidadãos estrangeiros afectados firmaram acordos compensatórios com o governo de Cuba. A única excepção foram os EUA.

 

Portanto, a lei Helms-Burton não viola somente as leis internacionais, mas as próprias leis dos EUA.

 

IV - Proíbe o acesso ao território dos EUA a todos os traficantes: directores de empresas, assessores, familiares destes, etc.. Isto, sem ter em conta que muitas das companhias que investem em Cuba têm negócios nos EUA. Este título não pode ser suspenso ou negociado pelo presidente dos EUA, sendo a primeira vez que ao chefe da Casa Branca é retirado o poder nas relações internacionais.

Entre os traficantes estavam os dirigentes e accionistas das empresas: Stet/Itália; Demos/México; Sherrit/Canadá; BM/Israel; Sol-Meliá/Espanha e Pernod-Ricard/França.

 

Em 1996 a União Europeia apresenta uma queixa na OMC contra os EUA, alegando a ilegalidade da lei Helms-Burton, que viola muitos acordos internacionais sobre o livre comércio, até mesmo os que os próprios EUA haviam forçado aprovação, tempos atrás, em instituições internacionais.

 

Perante esta acusação, os EUA responderam que se condenados pela OMC recorreriam a uma das cláusulas dessa organização que permite não aceitar a decisão, por colocar em perigo a segurança nacional.

 

1997

A União Europeia retira a acusação. Entretanto, o problema permanece devido aos investimentos dos empresários europeus em Cuba.

 

1998

Entra em vigor o Acordo de Birminghan. Num dos pontos centrais deste acordo, a UE aceita a internacionalização do bloqueio a Cuba, apesar da maioria dos seus membros o ter contestado permanentemente na ONU. Reconhece oficialmente a ilegalidade da nacionalização das propriedades norte-americanas em Cuba, apesar dos países europeus que chegaram a acordos compensatórios nunca terem contestado.

 

Como já foi dito, os diversos legisladores que impulsionaram a lei Helms-Burton tinham vínculo com a transnacional Bacardí e a FNCA, que apoiaram financeiramente as suas campanhas eleitorais. 

 

1999

A Associação de Usuários de Comunicação de Espanha (AUC) proibiu a Bacardí de utilizar uma publicidade na TV de um produto chamado Cuba Libre.

 

Neste mesmo ano a União Europeia apresentou queixa contra os EUA na OMC, em apoio à Pernod-Ricard e, consequentemente a Cuba. Argumento: os EUA estavam a violar os direitos de propriedade intelectual vinculados ao comércio. A acção ia para além da defesa da multinacional francesa, mas que a lei Helms-Burton/Bacardí-Martini havia imposto uma nova legislação 100% útil aos seus interesses, que poderia afectar rapidamente outros negócios europeus.

 

Ainda em 1999 um tribunal federal de Nova Iorque considerou injustificada a acção apresentada pela Havana Club Holding em 1996 contra a Bacardí, alegando não existir fraude ou engano ao consumidor. A Bacardí havia distribuído 906 caixas de um rum chamado Havana Club, produzido nas Bahamas.

 

Esta sentença fundamentava-se na secção 211 de uma emenda promulgada em 21 de Outubro de 1998, dois anos após o início do litígio e 24 anos depois da Cubaexport ter registado a marca nos USA.

 

Esta secção, um acrescento à lei Helms-Burton, foi a que levou a Comissão Europeia a colocar uma acção contra os EUA.

 

As primeiras frases da mencionada secção estabelecem que os tribunais dos EUA não podem reconhecer qualquer direito à marca ou patente de nenhuma empresa estrangeira que tenha conexão com propriedade de algum cidadão norte-americano, que tenha sido nacionalizada, sem indemnização, pelo governo revolucionário de Cuba. Mais ainda, não permite aos tribunais dos EUA pronunciarem-se sem condicionalismos sobre o litígio, retirando toda a competência dos juízes nesta matéria.

 

Na mesma Declaração, apoiada por vários países e pela União Europeia, Cuba considera a secção 211 como uma medida coercitiva unilateral contrária ao direito internacional, que representa uma extensão e reforço sem precedentes do bloqueio económico, comercial e financeiro.

Um tribunal norte-americano autorizou a Bacardí-Martini a vender em território nacional um rum chamado Havana Club, amparado pela lei Helms-Burton e a secção 211.

 

Desde 1999 o governo de Cuba assinalou que a decisão dos tribunais dos EUA, no fundo, estava a autorizá-lo a proceder de forma idêntica, ou seja, retirar a protecção às mais de 400 marcas norte-americanas registadas neste país.

 

O que aconteceria se a Tropicola passasse a ser chamada de Coca-Cola? ou se abrem restaurantes para a venda de hamburguers com o nome de McDonald´s? certamente que estas marcas incentivariam outra invasão à Ilha, um bloqueio naval ou aéreo total. Pelos antecedentes estas hipóteses não são um exagero.

 

Bacardí e EUA burlam os acordos internacionais cada vez que os seus interesses estão em jogo. O que está em causa não é a simples ideia de confronto EUA/Cuba como os media fazem parecer. É a sabotagem de regras que eles próprios consideram sagradas: a protecção das marcas registadas.

 

Estamos perante um conflito em que todas as estratégias e armas estão à disposição do mais forte, na tentativa de bloquear qualquer resistência.

 

Com todas as críticas que se possa fazer a algumas das orientações seguidas por Cuba é preciso salientar que o país tem sido a cabeça da denúncia de um sistema capitalista triturador e avassalador. Apesar de um bloqueio infame e de todas as tentativas sofisticadas e organizadas pelos sucessivos governos norte-americanos, multinacionais como a Bacardí e as organizações terroristas/paramilitares, Cuba é o único país da América Latina a apresentar resultados positivos significativos no plano social, saúde e educação.

 

Todas as decisões tomadas pelos EUA, de total desrespeito às leis internacionais, abrem precedentes perigosos ao mercado livre mundial: a pirataria.

 

Segundo o jornalista colombiano Hernando Calvo Ospina, autor da obra Rum Bacardí - A Guerra Oculta, se os planos se concretizarem conforme a proposta do Conselho de Negócios EUA-Cuba, será esta entidade a que terá mais poder numa Cuba pós-revolucionária, ao coordenar o objectivo fundamental da lei Helms-Burton: a apropriação da Ilha pelas corporações norte-americanas, incluindo as relacionadas com os cubano-americanos.

 

Por tudo o que foi mencionado e pela loucura que provoca o dinheiro no sistema legislativo dos EUA, os directores ou representantes de uma multinacional que nem sequer pertence ao país estariam à frente do processo.

 

Chegado o momento, as empresas que haviam traficado com propriedades nacionalizadas deverão pagar caro a ousadia, quer pelo tempo que estiveram quer pelo direito a continuar. Por exemplo, a Pernod-Ricard deverá desembolsar por cada garrafa que comercializou; a cadeia Sol-Meliá pelos turistas que acolheu. Caso contrário serão expulsas.


links:

http://www.sodepaz.org/bacardi/index.htm
http://www.rcgfrfi.easynet.co.uk/ratb/
http://www.tercermundoeconomico.org.uy/TME-122/actuali <


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