>Julho 2010
> Newsletter
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
> Nova investigação confirma insustentabilidade dos biocombustíveis
> Starbucks - A chávena das incoerências
> Destruição da floresta, acção 100% certificada pelo comércio justo
> Outra agricultura para outro clima
> Censo confirma: agricultura familiar produz mais em menor área
> “Precisamos de uma Internacional de movimentos sociais”
> Premio Nóbel al armamentista de Barack Obama
> Starbucks expande negócio e abre mais dois cafés no centro de Lisboa. O custo de um café
> Socialismo do século XX
 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Nova investigação confirma insustentabilidade dos biocombustíveis

2010/03/25 - Um novo estudo encomendado pela Comissão Europeia confirma que os objectivos europeus de consumo de biocombustíveis podem acarretar impactos ambientais negativos, como desflorestação, e exacerbar as alterações climáticas – precisamente o problema ambiental que eles eram supostos vir ajudar a resolver.


Neste trabalho conclui-se que os biocombustíveis empregues em transportes não devem ultrapassar 5.6% do total consumido. Qualquer valor acima disso representará um aumento rápido de emissões de gases com efeito de estufa e negará a vantagem ambiental desses mesmos biocombustíveis. No entanto a UE tem em vigor o objectivo de, até 2020, atingir os 10% de combustíveis renováveis... a maior parte dos quais serão biocombustíveis, visto que a introdução de carros eléctricos ainda vai no início.


O documento conclui igualmente que o perigo de alterações ao uso da terra em países menos desenvolvidos - em que floresta é queimada para produzir combustíveis "sustentáveis" - é uma ameça muito real e que deverá concretizar-se já a partir de 4.6% de consumo de biocombustíveis.


Fonte: Transgénicos fora


 

Starbucks - A chávena das incoerências

A partir do dia 2 de Março, a Starbucks passou a disponibilizar a todos os consumidores espanhóis a possibilidade de praticar um consumo justo e responsável, ao frequentar os seus estabelecimentos. Segundo um comunicado da FLO (Fair Trade Labelling Organization), a partir daquela data o café Expresso comercializado em Espanha pela multinacional, sediada em Seattle, advém de uma produção 100% certificada e “justa”.


Vejamos alguns factos subjacentes a estes arranjos empresariais:


Para aqueles que se deparam com dificuldades na hora de realizar um consumo crítico e responsável nos contextos urbanos; para aqueles que duvidam que as multinacionais possam ser um elemento de transformação social; para aqueles que afirmam que a redistribuição da riqueza e o respeito pelo ambiente não fazem parte das prioridades do capitalismo do Século XXI... A FLO e a Starbucks adoptam uma medida exemplar, ao estabelecer uma aliança estratégica para aumentar o consumo de café certificado do Comércio Justo.


O que significa esta certificação? Em primeiro lugar, uma incorporação parcial do Comércio Justo no comércio convencional, através da participação de empresas multinacionais. Desta forma, um café importado pela Intermón Oxfam e certificado pela FLO pode co-existir e competir sem grandes dificuldades com um café da Nestlé nas mesmas prateleiras do Carrefour. Ou neste caso, um café produzido no Sul, certificado na origem pela FLO e importado e distribuído pela Starbucks Espanha. Trata-se, sem dúvida, de uma convivência viável numa perspectiva física e publicitária, mas duvidosa do ponto de vista ideológico.


É óbvio que estas medidas têm como consequência um notável aumento dos volumes de vendas dos produtos de Comércio Justo. Este é um facto inegável, tão inegável quanto o poder comercial que estas multinacionais possuem. Igualmente inquestionável é o aumento da acessibilidade dos produtos e a notoriedade social da existência de um Comércio Justo. Mas vejamos: quais são as ideias relativas à justiça social que são mais “acessíveis” e “notórias” nas prateleiras das grandes superfícies ou nos estabelecimentos das cadeias multinacionais?    


Queremos enfatizar nesta análise que o Comércio Justo denuncia, não só os métodos de produção do Sul, como também o modelo de distribuição e de consumo do Norte. Caso contrário, a crítica deixa de ser sistémica, uma vez que ao limitar-se aos aspectos da produção do Sul, ignora a relação de interdependência e nega implicitamente o estilo de vida hegemónico das economias ocidentais como parte fundamental e determinante da problemática socio-ambiental derivada do capitalismo. Este tipo de certificações contem um conjunto de duvidosas implicações no sentido de aumentar, tanto a visibilidade como as vendas.   No fundo, assistimos ao paradoxo de uma aliança entre um movimento social - que denuncia e contesta um conjunto de regras, actores e impactos do comércio na economia globalizada - e, precisamente, alguns desses actores galácticos que mantêm os seus próprios padrões e regras, mas que agora têm alguns produtos “justos”.
Starbucks: Um por todos...


Como exemplo mais recente, revisitemos a última grande incursão empresarial no mundo do Comércio Justo: a multinacional transformadora e distribuidora de café Starbucks, criada em 1971. Desde Março de 2010, a empresa detém a certificação FLO que garante que 100% do café Expresso comercializado em Espanha é “justo”.


Uma certificação sonante, uma feroz campanha publicitária e a criação de um domínio web chamado, nada menos que, yoapoyoalcomerciojusto.org garantem o êxito comercial desta empresa, numa sociedade em que a justiça é apenas uma afirmação teórica sobre a origem. Contudo, a justiça certificada de uma parte da sua actividade produtiva no Sul não tem correspondência com a maior parte das suas políticas e práticas competitivas nos restantes áreas de actuação.


Esta empresa, além das históricas críticas aos abusos dos pequenos produtores de café no Sul, enfrentou nos últimos anos vários tipos de denúncias. Por exemplo, em 2006 a Intérmon Oxfam, uma das organizações que actualmente integra a FLO Espanha, denunciou o caso da Starbucks querer impedir a Etiópia, um país especialmente empobrecido do Sul, de registar as suas variedades de café e a pretensão da multinacional de criar as suas próprias patentes. Esta campanha permitiu à Etiópia aumentar o seu poder de negociação nos mercados internacionais de café e melhorar substancialmente os rendimentos de milhões de pequenos produtores, os mesmos que, actualmente, a Starbucks afirma defender.


Em 2007, sindicatos de vários países onde a Starbucks opera denunciaram o impedimento dos trabalhadores em aderir aos sindicatos. Em 2008, foi acusada de desperdiçar 23 milhões de litros de água por dia, fruto da sua “política de higiene” que obrigava a que as torneiras das suas 10.000 sucursais estivessem continuamente abertas. Outros tipos de denuncias são igualmente recorrentes: em 2010, o Governo mexicano, por intermédio da Agência Arqueológica Nacional, informou que a multinacional não pagou os direitos de propriedade intelectual por ter utilizado em alguns dos seus produtos imagens pré-colombianas. Alem disso, a Starbucks é uma das poucas empresas que ostenta um dia próprio no seu escaparate, trata-se do Dia de Acção Global contra a Starbucks, organizado pelo Sindicato do Comércio e Hotelaria do CNT-AIT de Sevilha e pelo Sindicato de Trabalhadores da Starbucks da Industrial Workers of the World (IWW) dos Estados Unidos.


Focalizando a nossa atenção mais a Norte, além dos quase 7.000 despedimentos anunciados como consequência da redução dos seus lucros em 2009 (64,5 milhões de dólares), a “justiça” da Starbucks materializa-se na precaridade laboral dos seus trabalhadores e trabalhadoras               e na sua agressiva estratégia de deslocalizações de pontos de venda. Esta prática empresarial contribuiu para o encerramento de muitos pequenos negócios, privando os cidadãos de centenas de bares e cafetarias, importantes espaços de socialização. 
Se em algum momento esta situação constituir um problema de imagem corporativa, provavelmente vai aparecer outro selo que certifique que todos aqueles pequenos comerciantes, obrigados a abandonar a sua actividade devido à concorrência desleal da Starbucks, sentem-se agradecidos à multinacional porque agora têm mais tempo livre para aproveitar a vida.


Assistimos a uma situação em que os injustos aproveitam-se dos justos, algumas organizações sociais apoiam esta iniciativa e grande parte dos cidadãos desinformados confundem o problema com a solução. A mercantilização de iniciativas que pretendem enfrentar o sistema económico não é um fenómeno recente, no entanto, é de facto original o aproveitamento comercial da revolta e da contestação, neste caso transformando a ideia da justiça comercial num rentável nicho de mercado.


As razões da rejeição deste tipo de certificações prendem-se com a sua conceptualização e a instrumentalização, bem como na nossa recusa em apoiar operações de branqueamento de imagem utilizando os conceitos de “verde” e “justo”, uma vez que esta ideia de justiça comercial esquece deliberadamente o resto das políticas e das práticas adoptadas por estas empresas. Que justiça existe num selo de café FLO que se vende num formato de distribuição social e ambientalmente insustentável, que promove o consumismo, que distribui outras 99,9% referências que nem são “verdes” nem “justas”, além de ter políticas severamente criticadas  pelos seus trabalhadores, sindicatos, fornecedores e clientes? Dizem que a Justiça é cega e que comprar café na Starbucks é consumir de forma responsável. Mas esta justiça da Starbucks que nos diz para onde devemos dirigir o olhar parece-nos ser, deliberadamente, míope. Da mesma forma, um café Starbucks e acreditar que está a apoiar uma justiça comercial parece-nos ser, necessariamente, uma incoerência.  consumir


 

Destruição da floresta, acção 100% certificada pelo comércio justo

Repare no rótulo de um chocolate Kit Kat: ostenta orgulhosamente o selo FLO, conhecido na Europa como Fairtrade. Que confiança nos dá um selo utilizado pela Nestlé e que certifica produtos cuja elaboração tem como consequência a destruição de numerosas florestas e da sua biodiversidade? Procure a sua resposta! O selo FLO garante 100% de certificação "justa" aos actos de destruição das florestas!


Comunicado da Greenpeace: Para o fabrico do chocolate Kit Kat, a Nestlé utiliza óleo de palma. Entre as empresas fornecedoras consta a maior responsável pela destruição da floresta da Indonésia, a Sinar. Esta destruição está a ter um impacto muito negativo no modo de vida e na sobrevivência das populações locais, assim como a ameaçar os orangotangos de extinção, animais nativos destas florestas.


Todos nós merecemos uma pausa, desde que isso não implique a destruição de uma das últimas florestas tropicais da Indonésia. Pedimos à Nestlé que dê um descanso às florestas tropicais e aos orangotangos e que deixe de comprar óleo de palma produzido à custa da destruição das florestas e da biodiversidade.


veja o video

Outra agricultura para outro clima
Esther Vivas

O atual modelo de produção agrícola e pecuário contribui para aprofundar a crise ecológica global com um impacto direto na mudança climática. Apesar de que à primeira vista não pareça, a agroindústria é uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa.

Dessa forma o divulga a Campanha ‘Não comas o mundo’, no marco das mobilizações desses dias por motivo da reunião das nações Unidas em Barcelona sobre mudança climática, prévia à crucial Cúpula de Copenhague (COP15), em dezembro, onde deve ser aprovado um novo tratado que substituirá o de Kyoto.

Segundo a campanha, entre 44 e 57% das emissões de gases de efeito estufa são provocadas pelo atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos. Uma cifra, resultado de somar as emissões das atividades estritamente agrícolas (1-15%); do desmatamento (15-18%); do processamento, transporte e refrigeração dos alimentos (15-20%) e dos resíduos orgânicos (3-4%).

E não podemos esquecer os elementos que caracterizam esse sistema de produção de alimentos: intensivo, industrial, quilométrico e petrodependente. Vejamos em detalhe. Intensivo porque leva a cabo uma superexploração dos solos e dos recursos naturais, o que acaba gerando a liberação de gases de efeito estuda por parte dos bosques, campos de cultivo e pastos. Ao antepor a produtividade antes do cuidado do meio ambiente e da regeneração da terra, rompe-se o equilíbrio mediante o qual os solos capturam e armazenam carbono, contribuindo para a estabilidade climática.

Industrial porque consiste em um modelo de produção mecanizado, com uso de agroquímicos, monocultivos etc. A utilização de grandes tratores para lavrar a terra e processar a comida contribui para a liberação de mais CO2. Os fertilizantes químicos utilizados na agricultura e na pecuária moderna geram uma grande quantidade de óxido nitroso, uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa. Da mesma forma, a queima dos bosques, selvas... para convertê-los em pastos ou monocultivos, acaba afetando gravemente a biodiversidade e contribui para a liberação massiva de carbono.

Quilométrico e dependente porque se trata de uma produção de mercadorias deslocada em busca da mão de obra mais barata e da legislação meio ambiental mais flexível. Os alimentos que consumimos percorrem milhares de quilômetros antes de chegar à nossa mesa com o conseguinte impacto meio ambiental. Calcula-se que, atualmente, a maior parte dos alimentos viaja de 2.500 a 4.000 quilômetros antes de ser consumidos, 25% a mais que em 1980. Nos encontramos diante de uma situação totalmente insustentável onde, por exemplo, a energia gasta para enviar umas alfaces de Almería até a Holanda é três vezes superior à utilizada para cultivá-las; consumimos alimentos oriundos de outro lado do mundo quando muitos desses também são cultivados no âmbito local.

A pecuária industrial é outro dos principais geradores de gases de efeito estufa e seu avanço tem significado uma maior devastação totalizando uns 26% da superfície terrestre dedicada a pastos e uns 33% à produção de grãos para ração animal. Seus percentuais de emissões de CO2 (principalmente causados pelo desmatamento); 37% das de metano (pela digestão dos ruminantes) e 65% de dióxido nitroso (pelo esterco).

Esse modelo de alimentação quilométrica e viajante, bem como o alto uso de agroquímicos derivados do petróleo, implica em uma grande dependência dos recursos fósseis. Como consequência, na medida em que o modelo produtivo agrícola e pecuarista-industrial depende fortemente do petróleo; daí que as crises alimentar, energética e climática estão intimamente relacionadas.

Porém, apesar desses dados, podemos parar a mudança climática e a agricultura camponesa, local e agroecológica, como assinala o centro de pesquisas Grain, pode contribuir de forma decisiva para que isso aconteça. Trata-se de devolver à terra a matéria orgânica que lhe foi tirada depois que a revolução verde tenha esgotado os solos com o uso intensivo de fertilizantes químicos, pesticidas etc. Para fazê-lo, falta apostar em técnicas agrícolas sustentáveis que podem aumentar gradualmente a matéria orgânica da terra em 2% em um período de cinquenta anos, restituindo a percentagem eliminada desde a década dos anos 60.

É necessário apostar em um modelo de produção diversificado, incorporando prados e adubo verde, integrando de novo a produção animal ao cultivo agrícola, com árvores e plantas locais. Com essas práticas, calcula-se que seria possível capturar até 2/3 do atual excesso de CO2 na atmosfera. O movimento internacional da Via Campesina o tem claro quando assinala que "a agricultura camponesa pode esfriar o planeta".

Da mesma forma, temos que denunciar as falsas soluções do capitalismo verde à mudança climática como a energia nuclear, os agrocombustíveis ou outras, como os lobbies empresariais que buscam mercantilizar o Tratado de Copenhague. Desde distintos movimentos sociais se exige "justiça climática", frente aos mecanismos de mercado incorporados no Protocolo de Kyoto e que terão continuidade em Copenhague. Uma justiça climática que deve caminhar paralelo com a "justiça social", ligando a luta contra a crise ecológica global ao combate à crise econômica que atinge amplos setores populares, em uma perspectiva anticapitalista e ecossocialista. Para que o clima não mude, temos que mudar o mundo.

[Esther Vivas, autora "Del campo al plato" (Icaria, 2009). Artigo em espanhol publicado em Público, 03/11/09. Tradução: ADITAL].

Censo confirma: agricultura familiar produz mais em menor área
Fonte: Imprensa MST

Setor emprega quase 75% da mão-de-obra no campo e é responsável pela segurança alimentar dos brasileiros, produzindo 70% do feijão, 87% da mandioca e 58% do leite consumidos no país.

Censo Agropecuário 2006 traz uma novidade: pela primeira vez, a agricultura familiar brasileira é retratada nas pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foram identificados 4.367.902 estabelecimentos de agricultura familiar que representam 84,4% do total, (5.175.489 estabelecimentos) mas ocupam apenas 24,3% (ou 80,25 milhões de hectares) da área dos estabelecimentos agropecuários brasileiros.
Apesar de ocupar apenas um quarto da área, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção (ou R$ 54,4 bilhões) desse total. Mesmo cultivando uma área menor, a agricultura familiar é responsável por garantir a segurança alimentar do país gerando os produtos da cesta básica consumidos pelos brasileiros. O valor bruto da produção na agricultura familiar é 677 reais por hectare/ano.
Os dados do IBGE apontam que em 2006, a agricultura familiar foi responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite , 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi a soja (16%). O valor médio da produção anual da agricultura familiar foi de R$ 13,99 mil.
Outro resultado positivo apontado pelo Censo 2006 é o número de pessoas ocupadas na agricultura: 12,3 milhões de trabalhadores no campo estão em estabelecimentos da agricultura familiar (74,4% do total de ocupados no campo). Ou seja, de cada dez ocupados no campo, sete estão na agricultura familiar que emprega 15,3 pessoas por 100 hectares.
Dois terços do total de ocupados no campo são homens. Mas o número de mulheres é bastante expressivo: 4,1 milhões de trabalhadoras no campo estão na agricultura familiar. As mulheres também são responsáveis pela direção de cerca de 600 mil estabelecimentos de agricultura familiar.
O Censo Agropecuário 2006 revela ainda que dos 4,3 milhões de estabelecimentos, 3,2 milhões de produtores são proprietários da terra. Isso representa 74,7% dos estabelecimentos com uma área de 87,7%.
Os critérios que definem o que é agricultura familiar foram determinados pela Lei nº 11.326 aprovada em 2006. Eles são mais restritivos do que os critérios usados em estudos feitos anteriormente por outros organismos como a Fao/Incra e universidades brasileiras que estudaram o setor. A Lei 11.326 determina que quatro módulos fiscais é o limite máximo para um empreendimento familiar. Determina também que a mão-de-obra deve ser predominantemente da própria família e a renda deve ser originada nas atividades da propriedade e a direção também tem que ser feita por um membro da família.
“Precisamos de uma Internacional de movimentos sociais”
Vice-presidente da Bolívia cobra mais iniciativa dos movimentos sociais latino-americanos e pede visão “continentalizada” da esquerda


Elena Apilánez e Vinicius Mansur de La Paz (Bolívia) - Brasil de Facto

Álvaro García Linera não é um vice qualquer. Além de acumular o posto de presidente do Congresso boliviano, ele é um dos principais responsáveis pelas articulações políticas do governo de Evo Morales e talvez o mais destacado teórico do processo pelo qual passa a Bolívia atualmente. Sua larga bagagem política e intelectual, além de o credenciar a receber títulos como o “vice-presidente mais atuante do continente” ou o “intelectual mais importante da América Latina na atualidade”, também o capacita para dar largas e aprofundadas respostas, fazendo com que nossa entrevista não chegasse nem à metade das perguntas preparadas. Em meio à atribulada agenda de um vice-presidente e candidato à reeleição em campanha, Álvaro García concedeu ao Brasil de Fato duas rápidas horas de uma conversa pouco factual e mais analítica sobre o processo político que vive a América Latina, em geral, e a Bolívia, em particular.

Brasil de Fato – Um olhar sobre a história política latino-americana indica que, de certa forma, ela se move por ondas. O senhor acha que essa ascensão recente de governos oriundos de organizações com trajetórias de esquerda configura uma nova onda?
Álvaro García Linera – Creio que este é um ciclo muito novo e inovador sem comparação nos últimos 100 anos da história política latino-americana. A única coisa comum no século 20 foram as ditaduras militares. Fora disso, a esquerda teve presença descompassada na região. Processo parecido foi a onda de luta armada, mas não era presença vitoriosa de esquerda; era combativa, resistente, por parte da ala mais radicalizada. A vitória em Cuba trouxe uma leva guerrilheira, que nos anos 1960 estava em todo o continente. Quando a esquerda armada triunfa na Nicarágua, o continente já tinha outros ritmos, outras rotas. Então, pela primeira vez em 100 anos há uma sintonia territorial da esquerda, com governos progressistas e revolucionários. A direita já tinha essa habilidade de “continentalizar” suas ações.

Quais elementos dão unidade a essa sintonia?
O que permitiu a leva de governos progressistas foi o ciclo neoliberal. Ciclo que, mais ou menos, golpeou todos os países de maneira quase simultânea em seus efeitos e defeitos. O atual processo é muito inovador por seu caráter “continentalizado” de esquerda, pela busca de políticas pós-neoliberais – umas mais radicais, outras menos –, por ser um ascenso da esquerda através da via democrática-eleitoral, por ser a primeira vez que ela projeta estratégias de caráter estrutural coordenadas a nível continental. Antes, a esquerda tinha um olhar sobre o continente em termos da conspiração revolucionária. Nunca em termos de economia, de comércio, de criar um mercado comum, uma defesa comum. É uma série de desafios sobre os quais ela nunca tinha refletido, que tem a ver com o exercício de governo, com sua maturidade de reflexão. E também é inovador porque isso se faz sem um pensamento único de esquerda. Não há um referente comum como a URSS, por sorte; não está a China, melhor ainda. O processo de esquerda são muitas coisas agora. Pode ser marxista ultra-radical, pode ser socialista, pode ser vinculado ao pós-modernismo intelectual, pode ser mais nacionalista... e todos são esquerda. Isso é muito rico, permite uma pluralidade de reflexões, de discursos, de ideias. Não há o modelo a imitar ou uma “igreja” que dita o bom comportamento, como ditava antes. É um momento de reconstrução plural do pensamento de esquerda, ainda primitivo. Mas, temos que ver a história em processos que podem durar 50, 80 anos. Não nos desesperemos por não ter as coisas consolidadas agora, por não termos com claridade um grande programa de esquerda continental e mundial. Isso vai demorar 20 anos pelo menos, depois de várias derrotas, de várias vitórias e outras derrotas. Este é um momento germinal e ainda há pedaços do continente que estão em outro rumo. Isso é normal, inclusive, é possível prever a curto prazo uma volta parcial do pensamento e dos governos de direita em alguns países no continente e não vamos nos assustar. Lutemos contra isso, mas este é um processo longo e lento, vai requerer ainda várias levas de ascenso social e popular que permitam despertar toda a potência desse momento histórico, que ainda não se fez visibilizar totalmente. Ainda faltam novas ondas. Não esqueça que Marx usava o conceito de revolução por ondas. Elas vão e voltam, logo vêm de novo e regressam um pouco. A onda atual é das primeiras, logo haverá um pequeno refluxo à espera de uma nova onda que permitirá, a depender dos homens e mulheres de carne e osso, expandi-la a outros territórios e aprofundar as mudanças que até agora são superficiais, parcialmente estruturais.

Este processo coloca a superação do capitalismo em jogo?
Marx dizia que o comunismo é o movimento real, que se desenvolve diante de nossos olhos, e que supera a ordem existente. Não é uma questão de teoria, de discurso, é questão de realidade. E está claro que a primeira meta pautada pelas forças populares diversas do continente foi, em primeiro lugar, frear o esvaziamento social, democrático e material que caracterizou o processo neoliberal. Esvaziamento material a partir da exteriorização dos excedentes, esvaziamento social com a retirada dos direitos conquistados nos últimos 100 anos e esvaziamento democrático mediante a aterrizagem da doutrina única, liberal e individualista. O segundo momento é de reconstituir e ampliar direitos da sociedade, assumir controles do excedente econômico, expandir a geração da riqueza com sua distribuição. Essas demandas sociais surgem a partir de 1995 e são de caráter democrático-social, no sentido marxista do termo. Ainda não foram atendidas plenamente, como é o tema da terra, entretanto, elas já abriram espaço para demandas mais radicais, mais comunistas, que ainda são incipientes, parciais e fragmentadas. Veja a experiência argentina com a tomada de fábricas, as experiências no Brasil, na Venezuela, as empresas sociais na Bolívia, criadas no nosso governo, reivindicadas pelo povo, ou a potencialização dada às estruturas comunitárias, para buscar um desenvolvimento diferente à economia de escala, com tecnologias alternativas, articulações de produção. Todas elas avançam, têm a experiência de gestão e regridem. Aqui na Bolívia, com a questão da água: existia uma experiência falida [privatização da água em Cochabamba], defende-se a socialização do controle da água, implanta-se outra gestão e, em seguida, ela retrocede. Ou seja, essas potencialidades comunistas da sociedade – porque não há comunismo que não venha da sociedade, não há comunismo de decreto, não há socialismo de Estado, isso é sem sentido – têm ainda uma força muito dispersa, uma presença embrionária, não conseguem coagular, mas estão latentes. Seguindo essa leitura, hoje, em 2009, não estamos diante de uma perspectiva de superação do capitalismo. Dizer outra coisa é nos enganar. Mas emergiram ações da sociedade que apontam para o socialismo, construído pelas próprias classes trabalhadoras. Existem sinais, sementes, aflorações, mas ainda não constituem a razão dominante da sociedade.

E quanto isso amadurecerá?
Em dez, 20 anos? Não se pode definir. O que pode fazer o revolucionário é, a cada sinal de socialismo – como a reapropriação, por parte dos produtores, de sua própria produção com democratização e socialização da tomada de decisões –, reforçá-lo para que se expanda. O dever do comunista é meter-se de cabeça a cada abertura, não inventar o comunismo. O comunismo é a capacidade real do povo de produzir e se associar. Eu tenho a leitura de Marx, ao avaliar a Segunda Revolução Industrial, em 1850, que dizia que serão necessárias dezenas, milhares de lutas, de fracassos, de pequenas vitórias, depois novamente fracassos, para que, da própria experiência da classe trabalhadora, surja a necessidade de associar-se para tomar o controle da produção. E isso é uma visão muito, mas muito otimista do ciclo que está emergindo.

E que importância tem a Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) e a Unasul (União das Nações Sul-americanas) neste cenário latino-americano e como o senhor vê os movimentos sociais nesse processo de integração?
A Unasul é um projeto continental, fruto da surpreendente simultaneidade de governos progressistas em boa parte do continente. Além da luta, estamos discutindo em termos de estrutura, de matéria, de economia, de sociedade, de cultura, de legislação... um grande salto. A esquerda não refletia sobre isso antes e isso é mudar nosso “chip”. Ainda não se escreveu sobre esse tema que, inevitavelmente, tem que entrar no discurso de esquerda. Ele segue sendo assunto dos funcionários das Chancelarias tradicionais, mas não é uma construção desses dinossauros. É uma construção de governantes progressistas que não tem o acompanhamento do intelecto social progressista, que está aí atônito, vendo, pasmo, esse novo ciclo. Tal projeto de integração tem que tomar em conta a unanimidade dos critérios de cada país, sendo um processo lento, estrutural. A perspectiva é boa, mas a velocidade é lenta, como tem que ser um bom processo de integração, não há que se desesperar. A União Européia está aí há pelo menos 30 anos e ainda está se construindo. Construir Estados-continente é complexíssimo, mas esse é o rumo do mundo no século 21, isso é o que vai contar no movimento de tomada de decisões econômicas.

E a Alba?
É diferente, porque é uma iniciativa de governos progressistas muito mais afins, o que permite maior velocidade em relação à Unasul. Tanto Mercosul como Alba deveriam dissolver-se no interior da Unasul, mas isso vai demorar décadas. Alba e Mercosul são estruturas de ação imediata. Vão assumir um conjunto de tarefas mais rapidamente e mais efetivamente. A Alba está articulando várias coisas ligadas à economia, usando regras que, pela afinidade política, não podem ser tomadas em outro cenário, levando adiante articulações e arranjos econômicos não baseados historicamente em relações de mercado. Ainda muito incipiente, mas, no caso de Bolívia e Venezuela, há um conjunto de atividades econômicas que já não estão necessariamente reguladas pelo mercado. Tem como parâmetro máximo o mercado, mas tentam construir intercâmbios comerciais a partir de outros critérios. São esforços audazes de complementaridade, como acontecem com os setores têxteis, do petróleo e da soja. A Venezuela tem relações parecidas com Cuba e Nicarágua. Não é retórica falar de processos crescentes de busca de outros mecanismos de integração não baseados em regulações de mercado. O recente passo do Sucre [sistema monetário comum da Alba], como um mecanismo de pagamentos entre os países, pode ser um novo piso nessa construção de algo muito novo, que não há em nenhuma outra parte do mundo. Outro passo são as empresas gran-nacionais, pertencentes aos Estados, que darão um olhar de gestão da economia de maneira regionalizada e unicamente organizada entre os países. Creio que a Bolívia vai dar esse primeiro passo da empresa gran-nacional com a Venezuela em um prazo muito curto. As condições materiais estão dadas.

E qual papel jogam os movimentos sociais nesse processo de integração?
Creio que a articulação deles em nível continental e sua participação nesses processos de integração é ainda muito incipiente. O neoliberalismo fragmentou tudo e reduziu as articulações a uma união via ONGs. Não era uma articulação autônoma. Hoje começa haver um encontro cara-a-cara de companheiros que se convidam, mas ainda avançaram pouco. Temos que ir além dos fóruns, que foram importantes nos anos 1990 para juntar 1990, rompendo as suscetibilidades de direções e de hegemonias, mas muito débeis, frouxos em seus discursos. A tomada de ações vinculantes não foi feita por nenhum dos fóruns. As pessoas retornavam para suas casas para arrumar seus papéis para convocar outro fórum. Necessitamos de uma estrutura bolchevique, que o MST tem, do movimento social. Isso tem que vir deles, não dos governos. Ainda não se criou uma plataforma continental dos movimentos sociais. Sei que isso é complexíssimo. Digamos que nem ao nível de países isso se dá, porque isso acontece em momentos espetaculares. A pauta de nacionalizações, por exemplo, dá lugar a revoluções. Mas precisamos desse esforço de nos olharmos como continente, não somente acompanharmos as ações dos presidentes. Quando há reunião da Alba, os movimentos sociais se reúnem e debatem temas complementares aos dos presidentes, melhor ainda quando os temas debatidos entre presidentes foram previamente discutidos com lideranças. Mas é necessário ir além. É dificílimo, mas talvez seja hora de projetar uma internacional continental de movimentos sociais, uma estrutura como uma internacional comunista, mas de movimentos sociais, continental e depois pensar em ir para o mundo. Diante da possibilidade de que em algum país de nosso continente a direita retome o governo, como eles não vão pautar uma mobilização? Ao fim e ao cabo, se essa leva progressista for para trás, quem mais sofrerá serão os movimentos. Eles estão obrigados a pensar continentalmente e devem defender e empurrar mais para lá esses processos. O século 21 exige novos compromissos, maiores ações e a melhor experiência a ser resgatada está nas reflexões de Marx sobre a Primeira Internacional, onde se juntaram partidos, sindicatos, agremiações, marxistas, anarquistas, socialistas... articulavam-se continentalmente com debilidade, mas com firmeza e vinculação de suas decisões. É melhor do que a Internacional leninista, e talvez a melhor referência para uma Internacional hoje não seja bolchevique, mas a comunista de Marx em seu debate fascinante com Bakunin [Mikhail Bakunin, um dos intelectuais fundadores do anarquismo]. Como se toma as decisões? É pela autoridade moral das organizações, dizia. Não se obriga a ninguém, mas todos estão comprometidos a cumprir o que decidiram. Precisamos de um novo passo já nessa década: uma internacional de movimentos sociais com maior capacidade de vinculação em suas decisões, de mobilização desde os países e com uma agenda comum debatida continentalmente por eles para defender esse processo, para controlá-lo e radicalizá-lo.

Seria necessário um ponta de lança para isso?
Modéstia à parte, creio que a Bolívia é a experiência mais avançada de movimentos sociais.

Mais do que o Brasil?
Sim. É um país menor, evidentemente, com menos gente. Mas a eficácia política-estatal do movimento é a mais radical no continente.

Essa é a originalidade do processo boliviano?
Acho que sim. Tudo isso aqui é movimento social.

No Estado?
No Estado, por fora do Estado, por baixo do Estado, por cima do Estado. Essa é uma grande discussão, temos que fazê-la. Nos causou muito dano o debate de John Holloway [do livro “Mudar o mundo sem tomar o poder”] e Marcos del Rojo, não? Eu tenho profundas discordâncias, mas respeito os companheiros. Mas tem que haver uma aliança de movimentos sociais continentais fortes que sejam os articuladores. Tem que haver uns quatro, cinco ou seis que se lancem, de maneira muito respeitosa, com democracia de base, e que articulem o debate com os demais, mas alguém tem que dar o primeiro passo, e logo.

Esse seria o sujeito revolucionário na América Latina?
O sujeito revolucionário é o que faz a revolução. Não há uma predestinação para definir quem será, esse foi o grande erro do debate ocioso da esquerda, desde antes dos anos 1950. Diziam ”esse é o que vai fazer a revolução” e seguiam esperando que o sujeito se movesse, mas ele estava em outra. Paranóico, não? O que está claro é que o sujeito revolucionário vem do mundo do trabalho sob a forma de camponês, de comunário, de indígena, de operário, de jovem, de intelectual, de integrante de associações de bairros. Isso não contradiz as reflexões de Marx, segue sendo o mundo trabalho, que se complexificou infinitamente frente ao que ele conheceu. Dependendo de qual desses espaços do mundo do trabalho assume maior protagonismo, o processo tenderá a visualizar um aspecto em detrimento de outros. Se é o mundo indígena e camponês, se visibilizará o tema da terra, da biodiversidade, e não o salarial. Em seu momento voltará a emergir o mundo do trabalho sob sua forma salarial, daqui a alguns anos, porque estamos em um processo de reconstrução do mundo salarial no continente e sua formação e estabilização vai requerer décadas. Ou se é mais do tipo de bairro, se visualizará o tema de necessidades básicas... mas são trabalhadores, como aconteceu em Cochabamba. Quem fez a Guerra da Água eram trabalhadores, mas não se moviam como sindicato de trabalhadores, se moviam como moradores. Mover-se como trabalhadores era ser demitido da fábrica. Canalizaram sua expectativa de outra forma. Não há que esperar que o operário da fábrica se una em sindicato para falar do protagonismo do mundo laboral. Ele se move de múltiplas formas, veja os sem-terra. No caso do Brasil, está claro que na medida em que há uma recomposição da produção – o Brasil, agora, como México, Filipinas, Coreia e outros seis ou sete lugares, é a oficina de produção do mundo – não haverá eficácia político-estatal do movimento social sem protagonismo forte desse mundo assalariado. Existe o Movimento Sem Terra, com linhas revolucionárias muito fortes – o que é excelente –, que assume a aposta de manter a presença da sociedade na construção de alternativas. Mas pensar um projeto de radicalização aí é também pensar em seu mundo trabalhador. Se o movimento operário não acompanhar o MST, daqui a uma década o que ele vai poder fazer, frente à necessidade que se requer semelhante potência mundial, será pouco.

E no caso da Bolívia?
Aqui, esse mundo do trabalho tem como liderança o movimento camponês-indígena, ainda que o país tenha tido alguns processos de assalariamento muito interessantes. São trabalhadores, criadores de riquezas, que têm estruturas locais associativas, formas de gestão comum da terra, trabalho individualizado, vínculos parciais com o mercado, vínculos não de mercado; e têm o protagonismo. Mas, aí no meio, estão também outros mundos laborais, assalariados, não-assalariados, que se mobilizam, mas com menor intensidade e maior dificuldade. Porém, se não conseguir avançar mais, será porque o movimento operário ainda não conseguiu mobilizar-se. Se esse mar de operários, daqui a cinco, dez ou 20 anos, não conseguir se unificar com identidade e ação coletiva, o movimento atual encontrará um limite. A chave vão ser esses dois braços, até que se reorganize o movimento da classe trabalhadora, que se rearticule diante da recomposição territorial da força de trabalho planetária.

Porém, muito se fala que não é possível entender o processo boliviano com um olhar tradicional de esquerda, com uma formação ocidental. Quais seriam essas limitações?
Não devem se meter com assessores ou algumas ONGs que os assessoram, aí está esse tipo de discurso que tem a ver com uma espécie de moda. Na central de trabalhadores camponeses, nas comunidades ou no movimento indígena em seus níveis intermediários e de base, não há esse debate falso. Muitos dos que seguem essa linha ajudam muito com seu trabalho, mas são parte de uma espécie de ressaca. Antes estavam envolvidos com uma esquerda tradicional e aderiram recentemente ao mundo indígena, o que os levou a radicalizar seus pontos de vista ostentosamente. Entende-se esse tipo de reação na medida em que, durante muito tempo, a esquerda tradicional aqui desdenhou o movimento indígena, os acusou de querer voltar a tempos arcaicos ou chamou-os de pequenos burgueses, resposta clássica dessa esquerda. Então, uma inteligência indígena se formou nos anos 1970, 1980 e 1990, como a figura de Fausto Reinaga, em rechaço a essa leitura bem primitiva. Essa inteligência se formou em batalhas contra a direita e também contra a esquerda, que repetia processos de discriminação, que dizia que a revolução era dos operários. Os camponeses eram a massa de apoio que levaria os operários nos ombros. Em cima deles, iriam os intelectuais, não era assim? Então, parte de uns convertidos recentes segue pensando nisso. Agora, no governo, nos debates da federação de camponeses ou na dos cocaleiros, há um processo rico dessa vertente camponesa-agrária-indígena com um novo marxismo. Nós lutamos por isso por mais de 20 anos. Eu briguei com todos os esquerdistas. Os primeiros textos que escrevi há 30 anos foram para brigar com trotskistas, stalinistas, maoístas, e todos me qualificaram de revisionista, de ignorante. Buscávamos um encontro entre marxismo e indianismo e acho que foi frutífero. Reivindico minha vertente marxista, às vezes me reivindico indianista, ainda que não seja indígena, e daí?

Como se encontraram essas vertentes?
O indianismo teve a grande virtude de denunciar a colonialidade do Estado – e não poderia vir de outros que não eles –, mas era impotente na questão do poder. Diziam “todos eram índios” e temos “que indianizar o Estado”. Muito bem, e como se faria isso? O seu discurso era denunciativo, mobilizador, mas somente denunciativo. A vertente marxista pautava o tema do poder, mas com suas incompreensões, o fazia à margem do movimento indígena, portanto, era um tema de elites. Assim, era impossível definir uma estratégia discursiva e de alianças que permitisse o acesso ao poder. Mas, no fim do século 20, indianismo e marxismo se fundem.

Essa é a originalidade do processo boliviano?
Em termos de discurso e de criação teórica-intelectual, sim. Isso permitiu criar um cenário de estratégia. Em termos de ação política, é a grande mobilização de massas: sublevações, bloqueios, marchas, levantamentos, insurreições.

E esse discurso tem muita distância com o discurso que há hoje?
Não, de jeito nenhum. Vou contar o que aconteceu com o Evo, quando iniciamos o programa Juancito Pinto [que dá bolsa aos estudantes do ensino fundamental], em 2006. Fomos entregá-lo no norte de Potosí [departamento no oeste boliviano]. Um jovem do campo se aproximou e perguntamos: “Como está? Em que série está?”. “Estou no terceiro básico, tenho oito anos”, disse. “E o que você fez com o seu bônus?”, perguntamos. “Estou guardando para me preparar para ser presidente como você”. Ah, por favor... É a melhor resposta que poderia dar. Quando um indígena coloca como possibilidade de vida ser governante, o tema do poder se converte em um feito próprio, porque era uma questão de submissão! O poder era de poucos brancos e formados, e agora um camponês do norte de Potosí, a zona mais pobre do país, dizia “eu também posso ser presidente”. Temos aí uma revolução cultural.

Há um simbolismo forte aí, mas até que ponto as bases realmente estão discutindo as transformações políticas? Qual é a proximidade das bases e da intelectualidade?
São espaços diferentes. Há o mundo da academia, que recebe para pensar 24 horas, e o mundo da vida laboral, associativa, sindical, do movimento camponês. Espaços diferentes que possuem canais de comunicação e distintas linguagens. No tema das alianças: a academia pode falar de bloco de poder, pode usar Gramsci, enquanto do outro lado a discussão é apoiar ou não os moradores desse bairro, se apoiamos ou não alguma candidatura. É o mesmo tema verbalizado de distintas maneiras. As mesmas preocupações da base são levadas para a academia e, na academia, de tudo que se reflete, poucas coisas são debate nas bases. Mas existem momentos em que eles se aproximam mais, criando um espaço de intervenção maior; e aí são os grandes ascensos. Quando a reflexão dessa intelectualidade progressista é o debate das assembleias. Quando o que surge em um jornal, em algum panfleto, em algum discurso, rapidamente é retomado pelos níveis dirigentes e levado à base. Essa é a dinâmica. É impossível isso ser permanente, porque são espaços diferentes no tempo e na forma de vida. Creio que em nenhuma parte isso se deu. A imagem que temos dos sovietes e do Partido Bolchevique está um pouco idealizada. O fato de que nas fábricas os operários liam Lênin não era verdade. Pensar essa fusão do espaço intelectual com o movimento social é impossível. Existem aí vasos comunicantes fluidos que levaram, inclusive, o âmbito intelectual a mudar em dez anos. O que debatiam os intelectuais antes? Governabilidade e coisas assim. Hoje debatem na universidade pública, e até nas privadas, a nova Constituição. Mesmo os setores conservadores têm que refletir sobre os fatos, tem que saber como o Direito Penal vai estar vinculado com a Nova Constituição. Hoje existem vasos comunicantes. Em certos momentos são rios comunicantes, ou fusões parciais, e logo separações, como em qualquer processo de transformação; outra vez. por ondas. Nada é definitivo, perpétuo ou já dado. A ideia de revolução permanente não é tão certa. Estes oito anos intensos na Bolívia demonstram essa dinâmica de ondas que falava Marx, mais do que o linear que nos dizia Trotski.

E como você avalia o protagonismo das mulheres na Bolívia?
O que está claro é que as mulheres têm uma forte presença no movimento indígena aqui, fazendo-se respeitar gradualmente com muitas dificuldades porque o movimento tem estruturas machistas. O presidente Evo, a cada dia, está recordando e convocando as mulheres a romper essas muralhas. Mas é onde mais se desenvolveu sua presença, mesmo que ainda lhe falte muito. E, no caso da classe trabalhadora, a metade da força de trabalho é mulher, jovem, mas o sindicalismo ainda é velho. Não dá espaço a elas, não as reconhecem e as mulheres preferem mover-se como estudantes, integrantes de associações de bairro ou donas de casa, ainda não como trabalhadoras. Vai ser necessário um grande processo em que se modifique o sindicato herdado, uma estrutura hierarquizada por gênero. Só um sindicato que modifique a questão dos horários, dos discursos, porque esses são mecanismos que anulam as mulheres, vai permitir reorganizar esse novo mundo do trabalhador jovem, feminizado pela presença de mulheres. O sindicato precisa ser apoiado por muitas partes para tomar outra modalidade organizativa e, sem mulheres, não vai haver movimento sindical, porque o velho movimento sindical masculinizado desapareceu.

Desapareceu?
Não no sindicato. Mas a condição masculina para ser trabalhador desapareceu e o sindicato que se construiu no século 20 correspondia a essa condição. Por isso, ele não dialoga com essa nova condição operária. As práticas, o discurso, o saber, a dinâmica desse novo mundo trabalhador, jovem e com muitas mulheres, não entra nas estruturas masculinizadas. Precisamos de novas estruturas e isso vai tardar 20 anos. Há que se ver a história a longo prazo, temos um mundo por ganhar neste século.

E o movimento estudantil na Bolívia hoje?
Não há movimento estudantil hoje. Existiu nos anos 1970, assumindo a liderança nas marchas, mobilizações, no debate público, na construção de assembleísmo, de democracia radical de base, de vinculação com as lutas populares. O momento culminante foi em 1983 e 1984. Mas há que se estudar a modificação da composição social dos universitários. Creio que isso é em todo o continente. Nos anos 1970 e 1980, a universidade pública estava composta por estudantes de classe média e média-alta. Pessoas que tinham certa estabilidade econômica, que não estavam buscando um ascenso social, senão uma estabilização e uma continuidade de sua condição. Portanto, tinham mais tempo para os estudos, para a mobilização e, em seu objetivo geracional, não havia competição por ascenso social. Nos anos 1980, começa s ampliação dos setores populares nas universidades. Em 1980, eram 60 mil estudantes em universidades públicas da Bolívia, no ano 2000, já eram 300 mil. A incorporação dessas classes populares traz consigo a ilusão do ascenso social via educação. Uma ilusão, mas uma ilusão bem fundada. Então, esses estudantes entram com outra vontade: não estão ali para ver o tempo passar, não vêm para consolidar sua condição social, vêm para buscar a ascensão. Seu ser social na universidade tem outra intencionalidade. Então, não tem tempo para assembleia, porque têm que trabalhar e estudar. Alguns demoram uma hora caminhando desde El Alto, depois têm que ir de novo a trabalhar, têm que cuidar dos filhos, dar atenção à família, não há processo de nucleamento dentro da universidade. Não estão aí para reclamar maior democracia no âmbito universitário. A eles, interessa o diploma o mais rápido possível. Porque precisa disso para o seguinte passo. Na década de 1970, eram outras expectativas materiais. Hoje, eles querem reconhecimento profissional e classista que lhes permita passar à outra classe.

Quem é Álvaro Garcia
Nascido em Cochabamba, em 1962, Álvaro García Linera é formado em matemática na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e sociólogo autodidata. Ao regressar de seus estudos, começa sua militância na Bolívia, vinculado às Células Mineiras de Base, grupo que se funde aos Ayllus Rojos nas atividades de propaganda e organização de comunidades do altiplano. Posteriormente, ingressa no Exército Guerrilheiro Túpac Katari (EGTK) – uma das poucas forças guerrilheiras propriamente indígenas da América Latina –, onde é destacado para atuar com formação política e pesquisa de comunidades indígenas. Em 1992, é preso, acusado de sublevação e levantamento armado, ficando encarcerado por cinco anos, tempo em que escreve uma de suas principais obras, o livro “Forma valor e forma comunidade”. Ao ser libertado, é convidado para ser professor do curso de sociologia da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA), a universidade pública de La Paz. Em 2006, assume a vice-presidência, ao lado do presidente Evo Morales, pelo Movimento ao Socialismo (MAS).
Premio Nóbel al armamentista de Barack Obama
Adán Salgado Andrade (especial para ARGENPRESS.info)

Recientemente se le concedió un muy polémico y cuestionable “premio Nóbel por la paz” al presidente estadounidense Barack Obama, basándose el mercantilizado premio simplemente en los “deseos” de Obama por librar al mundo de las armas nucleares.

Sin embargo, ese muy débil y alejado deseo contrasta con lo que Obama ha dejado de hacer o está haciendo no por la paz, sino en contra de ella. Escribí a finales del año pasado un artículo titulado “El silencio de Obama” (consultarlo en mi blog: adansalgadoandrade.blogspot.com) en el cual daba cuenta de que ante la masacre de palestinos una vez más por los belicistas israelíes en la franja de Gaza en los últimos días de diciembre, Obama nada dijo, pretextando que aún no tomaba posesión del cargo y que, en todo caso, “era la culpa de los terroristas de Hamas por provocar a los israelíes”, estas poco afortunadas declaraciones, a pesar de que hubo cientos de muertos, así como hospitales, edificios, avenidas y escuelas bombardeadas y un sin número de atrocidades que por estos días la ONU está dando cuenta que cometieron los soldados judíos (emplearon a civiles palestinos como escudos humanos o los mataban indiscriminadamente, pretextando que cualquiera podía ser su “enemigo”, además de que Israel sigue bloqueando el comercio, incluso de alimentos o les restringe o deja sin agua a miles de palestinos que habitan Gaza).
En un artículo más reciente, “Armas, corrupción y el big Money”, además doy cuenta de que la “estrategia” para librarse de los talibanes en Afganistán, otro invadido país por parte de EU, tiene como resultado que frecuentemente decenas de civiles inocentes sean el blanco de los ataques de la OTAN y de EU contra supuestos blancos enemigos, que resultan falsos y que provocan la absurda muerte de tales civiles, ante lo cual, en lugar de rectificar esa fallida estrategia, Obama ha aceptado enviar muchas más tropas (13,000 soldados se ha aprobado recientemente que se dirijan a ese país, aunque Obama piensa que será necesario enviar hasta 40,000 soldados extras) para “garantizar la paz” allí.
Pero además se ha informado que la mayoría de los soldados estadounidenses que están activos en Afganistán, están bastante desmoralizados y deprimidos, pues declaran que ni saben por qué están luchando en ese país, cuál es el objetivo, si hay verdaderos avances, ni a quién están combatiendo, porque los talibanes generalmente los atacan mediante minas o bombas colocadas a un lado de los caminos, pero pocas veces cuerpo a cuerpo. Tan deprimidos están, que muchos se han estado suicidando desde el año pasado, durante el cual 140 soldados estadounidenses se quitaron la vida. En el presente año, hasta octubre se han suicidado 134 y se espera que la cifra supere a los suicidios del año pasado (irónicamente, por estos días hubo una matanza en una base militar estadounidense, Fort Hood, perpetrada por un psiquiatra, el señor Malik Nadal Hasan, un musulmán nacido en Jordania, pero nacionalizado estadounidense. Hasan atendía justamente a los soldados con fuertes depresiones que regresaban de Afganistán, y sus historias seguramente influyeron en el desequilibrio mental sufrido por el desesperado psiquiatra a quien, por si eso no hubiera bastado, escuchar deprimentes historias, iba el ejército a enviarlo al frente afgano. Y es justamente en esa base en donde llegan los deprimidos soldados estadounidenses de Afganistán a recibir “tratamiento psiquiátrico”).
“Esto se está convirtiendo en otro Vietnam”, ha declarado un sacerdote de uno de los cuarteles militares estadounidenses, en referencia a que en Afganistán no hay objetivos claros por los cuales pelear y que la guerra se está alargando inútilmente. Además, esa “guerra” se está volviendo tan costosa e inútil, que más del 60% de los estadounidenses están en contra de que EU siga entrometido allí, además de que muchos opinan que es una causa perdida, pues las guerrillas talibanes, lejos de estar derrotadas y desanimadas, se refuerzan mucho más con cada día que transcurre. Esto puede verse en opiniones de los estadounidenses comunes como la siguiente: “Si nuestras tropas están deprimidas, extrañan su hogar y no les interesa pelear, no es su culpa, sino que es porque las están obligando a pelear una guerra sin una causa justificable y sin una política o estrategia claras. Ninguno de los objetivos por los cuales se invadió Afganistán, han sido cumplidos. Está en su noveno año, y el belicismo de las guerrillas locales ha aumentado en lugar de haber disminuido. Ni los talibanes ni Al-qaeda han podido ser derrotados. El supuesto presidente Karzai, es uno de los más impopulares líderes, pero se le sostiene, a pesar de que la reciente elección estuvo llena de fraudes y trampas. Se le está dando apoyo al grupo minoritario que no pertenece a los pashtun, mientras que a los pashtun se les hace a un lado sólo porque India lo quiere así (claro, pues si se apoyaran a los pashtuns, India correría el riesgo de que una parte de Afganistán se uniera a Pakistán, enemigo natural de aquélla, donde también hay pashtuns, lo que lo reforzaría en gente y territorio, además de que también se acrecentaría el sentimiento musulmán anti-hindú en toda la región y en Kashmir, el territorio administrado por India, Pakistán y China, apoyando a las guerrillas musulmanas jihadistas que allí operan, las que luchan por apoderarse del territorio administrado por India justamente en Kashmir). Y a pesar de que es una guerra que no se puede ganar, Obama trata de reforzar la derrota. Ni el aumento de tropas, o más misiles y menos hombres, servirán, pues todo se ha movido a favor del Talibán (por ello es que hasta se ha sugerido que se les pague a los guerrilleros talibanes un salario, con tal de que dejen las armas). El ejército es inepto e incapaz de combatir al Talibán. Y es cosa de tiempo antes de que comencemos a presenciar indisciplina, suicidios y desórdenes mentales (lo que está ocurriendo ya entre los estadounidenses, como menciono antes) entre las tropas comandadas por la coalición de la OTAN y EU. Y antes de que eso suceda, es mejor retirarse después de haber logrado un acuerdo con el Talibán”. Como puede verse, este generalizado sentimiento de derrota, impotencia e inutilidad tiende a popularizarse, y a pesar de ello el presidente de la paz, Obama, insiste en que más tropas de su país se estacionen allí. Lo irónico es que quizá se tuviera que llegar, en efecto, a un acuerdo con el Talibán, al que se derrocó luego de los muy sospechosos derribamientos de las torres gemelas, dado que todo parece indicar que se ha ido reforzando su presencia con los años en Afganistán.
Además, Obama está apoyando, en el caso de Honduras, país en donde las obscuras fuerzas reaccionarias propiciaron un golpe de Estado contra el presidente Manuel Zelaya, el que se realicen elecciones auspiciadas por el golpista Roberto Micheletti y que EU reconocerá al gobierno que pueda surgir de tan fraudulenta acción. Y puesto que el golpe de Estado se apoyó en el mercenario ejército hondureño – entrenado, por cierto, en bases militares estadounidenses –, sería otra prueba más de que Obama está dando vía libre al armamentismo en el mundo, con tal de proteger los intereses estadounidenses, también muy enraizados en Honduras.
Y si ya de por sí no bastara con apoyar el golpe militar en Honduras, o el polvorín en que se ha convertido a Afganistán, en donde, como dije, el mayor número de muertos es entre civiles inocentes, para que se pusiera en duda el que realmente Obama haya merecido el premio Nóbel de la paz, además está permitiendo veladamente que el Pentágono, dirigido por el muy beligerante secretario de la defensa Robert Gates, se rearme y sea la punta de lanza de la nueva estrategia de dominación estadounidense basada en un mayor belicismo, sobre todo ahora que EU está perdiendo de alguna manera el liderazgo económico a nivel mundial, así que si no domina a través de sus devaluados dólares y sus quebradas corporaciones y bancos, lo hará mediante el empleo intensivo y extensivo de la fuerza, como veremos.
A sus 66 años, el republicano Gates ha estado inmerso en la política, sobre todo en cuestiones militares y de seguridad, desde 1966, en que la CIA lo contrató para sus labores de inteligencia. Luego, en 1967, la Fuerza Aérea Estadounidense lo reclutó para que realizara labores de entrenamiento a tropas dedicadas a la operación de misiles interbalísticos. En 1969 de nuevo se unió a la CIa y en 1974, durante la presidencia de Richard Nixon, fue contratado para formar parte del Consejo Nacional de Seguridad. Luego ha pasado de ser asesor, director de la CIA, hasta secretario de la defensa de George W. Bush, cargo que le fue ratificado con Obama.
El lema de Gates, en cuanto a las cuestiones militares se refiere, es “El ejército necesita pelear en las batallas presentes no en las batallas futuras”. Esto porque el beligerante secretario dice que no tiene caso estar planeando cómo se pelearán las batallas en el futuro si no se están ganando las batallas de hoy día. Eso lo ha declarado porque en Irak es evidente que Estados Unidos no ha ganado la guerra, como tampoco ha sucedido en Afganistán, como ya mencioné arriba. Gates ha dicho de su persona que “Me he referido a mí como el secretario de guerra porque estamos en guerra”. Y del Pentágono declara: “Este es un departamento que sólo se la pasa planeando como hacer la guerra. No está organizado para ir a la guerra. Y justamente es lo que estoy tratando de hacer”. Y vaya si el señor ha tomado muy en serio su guerrero papel, pues hasta en el caso de la violencia que se ha desatado en México, por ejemplo, por el supuesto “combate al narcotráfico”, que han emprendido los mal administradores panistas, ha dicho que “Estados Unidos quiere incrementar la asistencia militar que provee a México para su lucha contra el tráfico de drogas. La ayuda podría ser suministrando equipo militar, entrenamiento, labores de inteligencia, con tal de ayudar a las autoridades en su lucha contra los bien armados y organizados narcotraficantes” (ver mi artículo “La muy oportuna descomposición del Estado mexicano, pretexto para militarizar y recrudecer la represión gubernamental”). Y Gates actúa acordemente con su inherente beligerancia, pues sus cintas favoritas son todas aquellas que tengan que ver con violencia y lo militar. Ejemplos recientes son “Transformers” y “Wolverine”, de las que declara el secretario que “La verdad salí muy contento luego de verlas”. Si, quizá porque en ellas en muchas escenas se hace alarde del poderío militar estadounidense, aunque éste resulte inútil frente a superhéroes y robots gigantes.
Pero además su estrategia puramente guerrera está haciendo énfasis en un fuerte impulso a la aún muy importante industria armamentista estadounidense, ya que está priorizando proyectos que, según él, son primordiales, en tanto que está dejando atrás o cancelando otros que, considera, no son estratégicos, ni siquiera para el futuro. Y a diferencia de Donald Rumsfeld, el anterior secretario de la defensa, quien decía que el ejército de EU debía combatir con las armas que tuviera, no las que deseara, Gates se ha propuesto combatir con las armas que, afirma, verdaderamente se necesitan.
Y de plano cortó fondos o los redujo bastante en casos como los aviones de combate F-22, que aunque son muy modernos y pueden evadir los radares, en guerras como las de Afganistán o Irak son casi inútiles, debido a que contra insurgentes o “terroristas” son de poco valor, pues son objetivos huidizos, difíciles de localizar. Decidió Gates presionar al congreso para que no se compraran más de la cuota normal de 187 aparatos, a pesar de que la Fuerza Aérea de EU deseaba aumentar sus cantidad. En lugar de esos aparatos, Gates decidió que era mejor adquirir más Predators, aviones robots que pueden vigilar y al mismo tiempo bombardear objetivos enemigos (de hecho esos aparatos se emplean ya en la frontera entre México y EU para vigilar a los muy peligrosos ilegales mexicanos). Además de que son más baratos, sirven más para las necesidades de combate en Irak y Afganistán, y evitan muertes de soldados, pues son robotizados, sentenció Gates cuando se opuso terminantemente a que más F-22 fueran adquiridos (así se le acabó uno de sus grandes negocios a Lockheed Martin, la compañía que fabrica los F-22).
No sólo eso, sino que también Gates se opuso terminantemente a proyectos que, desde su óptica, no valían el presupuesto que se les había asignado. Y decidió dejar fuera proyectos como un Boeing 747, diseñado para disparar en el aire misiles enemigos mediante un potente láser (al aparato le tomó 13 años de desarrollo hacer su primera prueba, la que no fue de todos modos tan satisfactoria). También eliminó del presupuesto un conjunto de satélites que podían, según sus diseñadores, “comunicarse” entre ellos, pero que tampoco habían probado ser funcionales. Otro programa futuro que Gates suprimió es el llamado Future Combat Systems, un ambicioso plan que pretendía gastar 160,000 mdd con tal de equipar a los soldados de sofisticados armamentos hacia el 2011, pero que tampoco convenció a Gates de su utilidad, pues prefiere que las guerras se ganen hoy y no en el futuro, como ya señalé antes. Y quizá el más cómico proyecto que eliminó, tal vez porque realmente se siente como algo absurdo y fútil, es un costosísimo helicóptero presidencial equipado con, ¡háganme favor!, una cocina que puede calentar alimentos aún después de una guerra nuclear, como si tras un conflicto de ese destructivo, mortífero nivel aún quedara vivo el presidente estadounidense y, peor aún, se pusiera a comer (esto más bien recuerda a los plots hollywoodenses en donde la figura presidencial es lo más importante en una invasión militar o extraterrestre y se le debe de mantener con vida cueste lo que cueste).
Pero mientras Gates ha suprimido varios programas, el desarrollo de otros armamentos ha visto incrementado su presupuesto, como es el caso de los aviones militares F-35, considerados vitales para los bombardeos en Irak o Afganistán. Su presupuesto para fabricarlos pasó de 6800 millones de dólares (mdd) a 10400 mdd, un alza del 53%. Otro concepto que ha subido muchísimo su presupuesto es el de los vehículos blindados denominados MRAPs (mine-resistant, ambush-protected, o sea, vehículos resistentes a las minas y a las emboscadas), considerados por Gates como vitales en los ataques con minas o bombas ligeras, pues su resistencia los hace soportar la mayoría de los ataques de ese tipo y de los cuales, por cierto, no se enteró por sus subalternos, sino porque un día leyó sobre esos vehículos en un artículo de la publicación USA Today. Había hasta hace dos años muy pocos de esos vehículos, pues los que se usaban eran los famosos Humvees, con blindaje ligero, que cuando eran atacados, generalmente eran destruidos y sus ocupantes, soldados estadounidenses, casi todos morían o resultaban mortalmente heridos. Gates detectó esa situación y ordenó una sustancial alza en la fabricación de MRAP’s, a 1000 vehículos mensuales a partir de 2008. así que fue prioritario producir miles de esos vehículos a un promedio de medio millón de dólares cada uno, un costo enorme, por supuesto, que implicó una inicial inversión del Pentágono de 25,000 mdd (equivalente a las remesas enviadas a México este año por los paisanos que trabajan aún en EU). Por supuesto que si la idea de Gates fue sólo la de dotar de mejores vehículos blindados a los soldados estadounidenses, también implicó un excelente beneficio para la industria armamentista, ya que aquí la principal agraciada fue una empresa casi desconocida, Force Protection, pero que gracias al modelito de MRAP que diseñó, el cual era el que justo conoció Gates a través de USA Today, se fue a las nubes, y luego de casi haber vendido unos cuantos blindados y casi quebrar, por estos días ha entregado 2236 vehículos a un costo de nada menos que ¡1300 millones de dólares!, gracias a los cuales ya hasta cotiza en la bolsa de valores y sus acciones son muy buscadas por ávidos inversionistas en busca de ganancias fáciles. Le sigue Internacional Military and Government, que ha vendido 1975 vehículos en 1000 mdd; Armor Holdings, que ha vendido 1174 blindados en 518.5 mdd; BAE Systems, que ha vendido 929 vehículos en 484.9 mdd; Protected Vehicles Inc., que vendió 64 blindados en 37.4 mdd; Hoscos Truck, que vendió 104 en 30.6 mdd y por último General Dynamics, que sólo ha vendido 24 blindados en 11 mdd. Pero no sólo eso, sino que el efecto multiplicador que tan gran cantidad de vehículos genera, ha también beneficiado al sector siderúrgico, pues se han requerido 21,000 toneladas mensuales de acero de alta resistencia balística, así como otros productos, tales como las llantas especiales que llevan los blindados, y que únicamente fabrica la empresa Michelin, la cual sólo hacía 1000 por mes, pero tuvo que subir la producción a 17,000 llantas mensuales, que aunque mereció un gran esfuerzo de su parte, se compensa con los millones de dólares de ganancias que la súbita demanda de blindados ha ocasionado.
Así que, como se ve, muchas empresas le han entrado al gran negocio que ha promovido Gates, tanto directa, como indirectamente, con tal de que los soldados estadounidenses no sigan, es la justificación, muriendo en las constantes emboscadas y minas que sus vehículos encuentran por docenas en los caminos por donde circulan de los invadidos países de Irak y Afganistán. Hay alrededor de 13,000 MRAP’s actualmente tanto en Irak, como en Afganistán. Así que no sólo se han salvado vidas, sino que ha sido parte del plan de reactivación económica emprendido por Obama, quien ha enfatizado que la industria militar estadounidense sigue siendo vital para los EU, no solamente por las cuestiones de dominación que aquélla implica, sino que financieramente los 500,000 mdd que se gastan en promedio al año, proveen cientos de miles de empleos, así como el que se mantenga a flote el aparato bélico con el que EU pretende seguir dominando al mundo, como ya señalé antes.
Otra arma que ha recibido una gran atención por parte de Gates es un satélite llamado Advanced Extremely High Frequency Satellite, desarrollado por Lockheed Martin y Hughes Space and Communications Company, al que se dedicaron inicialmente para su desarrollo 500 mdd anuales y ahora se le reasignaron 2300 mdd, 360% de incremento, que se supone que evita que las comunicaciones militares y de todas las operaciones invasivas del ejército estadounidense no se saturen, ni se colapsen.
El P-8 Poseidon fabricado por la división militar de la empresa Boeing, Boeing Integrated Defense Systems, es un avión al que se asignaron 1200 mdd y ahora se le dedicarán 2900 mdd, 142% de incremento. Este aparato se supone que es muy útil para vigilar y atacar tanto objetivos aéreos, así como submarinos, pues tiene muy “sofisticada” tecnología para rastrear las posibles amenazas.
Por último, está el destructor Aegis, del que existen 62 embarcaciones, al muy módico costo cada uno de 1100 mdd, 34 de las cuales fueron construidas conjuntamente por las empresas militares General Dynamics y Bath Iron Works, y 28 fabricadas por Northrop Grumman Ship Systems e Ingalls Shipbuilding. En proporción a los otros armamentos, el Aegis recibió muy especial atención por parte de Gates, ya que tenía asignados apenas 200 mdd y ahora se le dieron 3000 mdd, ¡1490% de incremento! Esta embarcación militar se supone que puede atacar con gran precisión, alcance y poder objetivos, tanto en tierra, como en aire, y en el mar, ya que está armada hasta los dientes, entre misiles Tomahawk, MK-41… torpedos Mark 32, MK-46… metralletas, cañones, misiles balísticos… ¡toda una joya de la mortífera ingeniería militar estadounidense!
Pero la estrella de todo este conjunto de armas de destrucción masiva de “nueva generación” es una superbomba antibunkers conocida como Massive Ordnance Penetrador (penetrador artillado masivo), MOP, que es un monstruoso artefacto explosivo que mide seis metros de largo y pesa 13.6 toneladas, desarrollado conjuntamente por Northrop Grumman, Lockheed Martin y Boeing (como se ve, entre algunas de las grandes empresas militares se reparten el botín). Está equipado con 2700 kilogramos de explosivos y es capaz de penetrar hasta 60 metros en búnkers hechos de concreto reforzado de mediana resistencia, hasta 8 metros en aquéllos hechos de concreto reforzado de alta resistencia o puede abrirse paso hasta 40 metros en estratos rocosos. Hace poco el Pentágono urgió al congreso estadounidense para que destinara fondos de emergencia para el desarrollo del MOP por 88 millones de dólares, citando una “Necesidad Operacional Urgente (UNO, urgent operacional need). Y todo indica que la tal urgente necesidad es la de contar en unos pocos meses con esa monstruosa bomba que pueda destruir las instalaciones nucleares de Irán, país que se sospecha que está desarrollando bombas nucleares. Con el MOP, señalan sectores de inteligencia militar y, claro, el mismo Gates, podrían destruirse los complejos iraníes que existen en Natanz y el que se está terminando cerca de la ciudad sagrada de Qom, en caso de que, en efecto, se compruebe que Irán cuenta con un programa para fabricar bombas nucleares. Y si Irán está o no desarrollando armas nucleares, no está claro, pues se ha venido resistiendo a que la agencia de la ONU encargada de que los países fuera del club de poseedores de armas nucleares no las posean, la IAEA, realice una revisión de sus instalaciones las que, insiste ese país, son solamente para usos pacíficos, pero sospecho que así es. Y de todos modos si Irán está desarrollando armas nucleares, a fin de cuentas serán no para de momento emplearlas, por fortuna – cuando los países poseedores de ojivas nucleares las empleen, será el fin de nuestro planeta –, sino para disuadir a que países como EU tramen una invasión, como hicieron en Irak, pues si este país hubiera poseído ojivas nucleares, no se habría atrevido EU a atacarlo, que es justo lo que pasa con Corea del Norte, país que ya posee algunas bombas nucleares y es por ello que EU no se ha aventurado a tocarlo ya.
Y también Gates ha solicitado al congreso casi 52 millones de dólares para que la empresa McDonnell Douglas acondicione un bombardero B-52 para que pueda transportar la explosiva, pesada mole hasta el sitio en donde se arrojaría. Y con el MOP podrían destruirse, según sus diseñadores, tanto los búnkers iraníes, como los norcoreanos para evitar que más países se hagan de bombas nucleares. ¡Pues vaya con tan “éticas” consideraciones, proviniendo de países como EU o Inglaterra, que poseen decenas de ojivas nucleares que podrían destruir varias veces el planeta! Además me parece irresponsable que se empleara el MOP contra instalaciones nucleares tanto iraníes, como norcoreanas, pues al destruirse, seguramente detonarían explosiones del material radioactivo que hubiera en Irán o de las bombas nucleares norcoreanas, lo que provocaría desastres ecológicos por las nubes radioactivas que se esparcirían. Pero además en el caso de Corea del Norte, no imagino que se esperaría con los brazos cruzados a ser bombardeada con MOP’s, sino que respondería de inmediato, lo que quizá llevaría al inicio de un conflicto termonuclear de mortíferas consecuencias para todo el planeta. ¡Esos son los grandes planes del beligerante Gates, auspiciados, claro, por el premio Nóbel de la paz de este año, el señor Barack Obama!


Adán Salgado Andrade (especial para ARGENPRESS.info)

Recientemente se le concedió un muy polémico y cuestionable “premio Nóbel por la paz” al presidente estadounidense Barack Obama, basándose el mercantilizado premio simplemente en los “deseos” de Obama por librar al mundo de las armas nucleares.

Sin embargo, ese muy débil y alejado deseo contrasta con lo que Obama ha dejado de hacer o está haciendo no por la paz, sino en contra de ella. Escribí a finales del año pasado un artículo titulado “El silencio de Obama” (consultarlo en mi blog: adansalgadoandrade.blogspot.com) en el cual daba cuenta de que ante la masacre de palestinos una vez más por los belicistas israelíes en la franja de Gaza en los últimos días de diciembre, Obama nada dijo, pretextando que aún no tomaba posesión del cargo y que, en todo caso, “era la culpa de los terroristas de Hamas por provocar a los israelíes”, estas poco afortunadas declaraciones, a pesar de que hubo cientos de muertos, así como hospitales, edificios, avenidas y escuelas bombardeadas y un sin número de atrocidades que por estos días la ONU está dando cuenta que cometieron los soldados judíos (emplearon a civiles palestinos como escudos humanos o los mataban indiscriminadamente, pretextando que cualquiera podía ser su “enemigo”, además de que Israel sigue bloqueando el comercio, incluso de alimentos o les restringe o deja sin agua a miles de palestinos que habitan Gaza).
En un artículo más reciente, “Armas, corrupción y el big Money”, además doy cuenta de que la “estrategia” para librarse de los talibanes en Afganistán, otro invadido país por parte de EU, tiene como resultado que frecuentemente decenas de civiles inocentes sean el blanco de los ataques de la OTAN y de EU contra supuestos blancos enemigos, que resultan falsos y que provocan la absurda muerte de tales civiles, ante lo cual, en lugar de rectificar esa fallida estrategia, Obama ha aceptado enviar muchas más tropas (13,000 soldados se ha aprobado recientemente que se dirijan a ese país, aunque Obama piensa que será necesario enviar hasta 40,000 soldados extras) para “garantizar la paz” allí.
Pero además se ha informado que la mayoría de los soldados estadounidenses que están activos en Afganistán, están bastante desmoralizados y deprimidos, pues declaran que ni saben por qué están luchando en ese país, cuál es el objetivo, si hay verdaderos avances, ni a quién están combatiendo, porque los talibanes generalmente los atacan mediante minas o bombas colocadas a un lado de los caminos, pero pocas veces cuerpo a cuerpo. Tan deprimidos están, que muchos se han estado suicidando desde el año pasado, durante el cual 140 soldados estadounidenses se quitaron la vida. En el presente año, hasta octubre se han suicidado 134 y se espera que la cifra supere a los suicidios del año pasado (irónicamente, por estos días hubo una matanza en una base militar estadounidense, Fort Hood, perpetrada por un psiquiatra, el señor Malik Nadal Hasan, un musulmán nacido en Jordania, pero nacionalizado estadounidense. Hasan atendía justamente a los soldados con fuertes depresiones que regresaban de Afganistán, y sus historias seguramente influyeron en el desequilibrio mental sufrido por el desesperado psiquiatra a quien, por si eso no hubiera bastado, escuchar deprimentes historias, iba el ejército a enviarlo al frente afgano. Y es justamente en esa base en donde llegan los deprimidos soldados estadounidenses de Afganistán a recibir “tratamiento psiquiátrico”).
“Esto se está convirtiendo en otro Vietnam”, ha declarado un sacerdote de uno de los cuarteles militares estadounidenses, en referencia a que en Afganistán no hay objetivos claros por los cuales pelear y que la guerra se está alargando inútilmente. Además, esa “guerra” se está volviendo tan costosa e inútil, que más del 60% de los estadounidenses están en contra de que EU siga entrometido allí, además de que muchos opinan que es una causa perdida, pues las guerrillas talibanes, lejos de estar derrotadas y desanimadas, se refuerzan mucho más con cada día que transcurre. Esto puede verse en opiniones de los estadounidenses comunes como la siguiente: “Si nuestras tropas están deprimidas, extrañan su hogar y no les interesa pelear, no es su culpa, sino que es porque las están obligando a pelear una guerra sin una causa justificable y sin una política o estrategia claras. Ninguno de los objetivos por los cuales se invadió Afganistán, han sido cumplidos. Está en su noveno año, y el belicismo de las guerrillas locales ha aumentado en lugar de haber disminuido. Ni los talibanes ni Al-qaeda han podido ser derrotados. El supuesto presidente Karzai, es uno de los más impopulares líderes, pero se le sostiene, a pesar de que la reciente elección estuvo llena de fraudes y trampas. Se le está dando apoyo al grupo minoritario que no pertenece a los pashtun, mientras que a los pashtun se les hace a un lado sólo porque India lo quiere así (claro, pues si se apoyaran a los pashtuns, India correría el riesgo de que una parte de Afganistán se uniera a Pakistán, enemigo natural de aquélla, donde también hay pashtuns, lo que lo reforzaría en gente y territorio, además de que también se acrecentaría el sentimiento musulmán anti-hindú en toda la región y en Kashmir, el territorio administrado por India, Pakistán y China, apoyando a las guerrillas musulmanas jihadistas que allí operan, las que luchan por apoderarse del territorio administrado por India justamente en Kashmir). Y a pesar de que es una guerra que no se puede ganar, Obama trata de reforzar la derrota. Ni el aumento de tropas, o más misiles y menos hombres, servirán, pues todo se ha movido a favor del Talibán (por ello es que hasta se ha sugerido que se les pague a los guerrilleros talibanes un salario, con tal de que dejen las armas). El ejército es inepto e incapaz de combatir al Talibán. Y es cosa de tiempo antes de que comencemos a presenciar indisciplina, suicidios y desórdenes mentales (lo que está ocurriendo ya entre los estadounidenses, como menciono antes) entre las tropas comandadas por la coalición de la OTAN y EU. Y antes de que eso suceda, es mejor retirarse después de haber logrado un acuerdo con el Talibán”. Como puede verse, este generalizado sentimiento de derrota, impotencia e inutilidad tiende a popularizarse, y a pesar de ello el presidente de la paz, Obama, insiste en que más tropas de su país se estacionen allí. Lo irónico es que quizá se tuviera que llegar, en efecto, a un acuerdo con el Talibán, al que se derrocó luego de los muy sospechosos derribamientos de las torres gemelas, dado que todo parece indicar que se ha ido reforzando su presencia con los años en Afganistán.
Además, Obama está apoyando, en el caso de Honduras, país en donde las obscuras fuerzas reaccionarias propiciaron un golpe de Estado contra el presidente Manuel Zelaya, el que se realicen elecciones auspiciadas por el golpista Roberto Micheletti y que EU reconocerá al gobierno que pueda surgir de tan fraudulenta acción. Y puesto que el golpe de Estado se apoyó en el mercenario ejército hondureño – entrenado, por cierto, en bases militares estadounidenses –, sería otra prueba más de que Obama está dando vía libre al armamentismo en el mundo, con tal de proteger los intereses estadounidenses, también muy enraizados en Honduras.
Y si ya de por sí no bastara con apoyar el golpe militar en Honduras, o el polvorín en que se ha convertido a Afganistán, en donde, como dije, el mayor número de muertos es entre civiles inocentes, para que se pusiera en duda el que realmente Obama haya merecido el premio Nóbel de la paz, además está permitiendo veladamente que el Pentágono, dirigido por el muy beligerante secretario de la defensa Robert Gates, se rearme y sea la punta de lanza de la nueva estrategia de dominación estadounidense basada en un mayor belicismo, sobre todo ahora que EU está perdiendo de alguna manera el liderazgo económico a nivel mundial, así que si no domina a través de sus devaluados dólares y sus quebradas corporaciones y bancos, lo hará mediante el empleo intensivo y extensivo de la fuerza, como veremos.
A sus 66 años, el republicano Gates ha estado inmerso en la política, sobre todo en cuestiones militares y de seguridad, desde 1966, en que la CIA lo contrató para sus labores de inteligencia. Luego, en 1967, la Fuerza Aérea Estadounidense lo reclutó para que realizara labores de entrenamiento a tropas dedicadas a la operación de misiles interbalísticos. En 1969 de nuevo se unió a la CIa y en 1974, durante la presidencia de Richard Nixon, fue contratado para formar parte del Consejo Nacional de Seguridad. Luego ha pasado de ser asesor, director de la CIA, hasta secretario de la defensa de George W. Bush, cargo que le fue ratificado con Obama.
El lema de Gates, en cuanto a las cuestiones militares se refiere, es “El ejército necesita pelear en las batallas presentes no en las batallas futuras”. Esto porque el beligerante secretario dice que no tiene caso estar planeando cómo se pelearán las batallas en el futuro si no se están ganando las batallas de hoy día. Eso lo ha declarado porque en Irak es evidente que Estados Unidos no ha ganado la guerra, como tampoco ha sucedido en Afganistán, como ya mencioné arriba. Gates ha dicho de su persona que “Me he referido a mí como el secretario de guerra porque estamos en guerra”. Y del Pentágono declara: “Este es un departamento que sólo se la pasa planeando como hacer la guerra. No está organizado para ir a la guerra. Y justamente es lo que estoy tratando de hacer”. Y vaya si el señor ha tomado muy en serio su guerrero papel, pues hasta en el caso de la violencia que se ha desatado en México, por ejemplo, por el supuesto “combate al narcotráfico”, que han emprendido los mal administradores panistas, ha dicho que “Estados Unidos quiere incrementar la asistencia militar que provee a México para su lucha contra el tráfico de drogas. La ayuda podría ser suministrando equipo militar, entrenamiento, labores de inteligencia, con tal de ayudar a las autoridades en su lucha contra los bien armados y organizados narcotraficantes” (ver mi artículo “La muy oportuna descomposición del Estado mexicano, pretexto para militarizar y recrudecer la represión gubernamental”). Y Gates actúa acordemente con su inherente beligerancia, pues sus cintas favoritas son todas aquellas que tengan que ver con violencia y lo militar. Ejemplos recientes son “Transformers” y “Wolverine”, de las que declara el secretario que “La verdad salí muy contento luego de verlas”. Si, quizá porque en ellas en muchas escenas se hace alarde del poderío militar estadounidense, aunque éste resulte inútil frente a superhéroes y robots gigantes.
Pero además su estrategia puramente guerrera está haciendo énfasis en un fuerte impulso a la aún muy importante industria armamentista estadounidense, ya que está priorizando proyectos que, según él, son primordiales, en tanto que está dejando atrás o cancelando otros que, considera, no son estratégicos, ni siquiera para el futuro. Y a diferencia de Donald Rumsfeld, el anterior secretario de la defensa, quien decía que el ejército de EU debía combatir con las armas que tuviera, no las que deseara, Gates se ha propuesto combatir con las armas que, afirma, verdaderamente se necesitan.
Y de plano cortó fondos o los redujo bastante en casos como los aviones de combate F-22, que aunque son muy modernos y pueden evadir los radares, en guerras como las de Afganistán o Irak son casi inútiles, debido a que contra insurgentes o “terroristas” son de poco valor, pues son objetivos huidizos, difíciles de localizar. Decidió Gates presionar al congreso para que no se compraran más de la cuota normal de 187 aparatos, a pesar de que la Fuerza Aérea de EU deseaba aumentar sus cantidad. En lugar de esos aparatos, Gates decidió que era mejor adquirir más Predators, aviones robots que pueden vigilar y al mismo tiempo bombardear objetivos enemigos (de hecho esos aparatos se emplean ya en la frontera entre México y EU para vigilar a los muy peligrosos ilegales mexicanos). Además de que son más baratos, sirven más para las necesidades de combate en Irak y Afganistán, y evitan muertes de soldados, pues son robotizados, sentenció Gates cuando se opuso terminantemente a que más F-22 fueran adquiridos (así se le acabó uno de sus grandes negocios a Lockheed Martin, la compañía que fabrica los F-22).
No sólo eso, sino que también Gates se opuso terminantemente a proyectos que, desde su óptica, no valían el presupuesto que se les había asignado. Y decidió dejar fuera proyectos como un Boeing 747, diseñado para disparar en el aire misiles enemigos mediante un potente láser (al aparato le tomó 13 años de desarrollo hacer su primera prueba, la que no fue de todos modos tan satisfactoria). También eliminó del presupuesto un conjunto de satélites que podían, según sus diseñadores, “comunicarse” entre ellos, pero que tampoco habían probado ser funcionales. Otro programa futuro que Gates suprimió es el llamado Future Combat Systems, un ambicioso plan que pretendía gastar 160,000 mdd con tal de equipar a los soldados de sofisticados armamentos hacia el 2011, pero que tampoco convenció a Gates de su utilidad, pues prefiere que las guerras se ganen hoy y no en el futuro, como ya señalé antes. Y quizá el más cómico proyecto que eliminó, tal vez porque realmente se siente como algo absurdo y fútil, es un costosísimo helicóptero presidencial equipado con, ¡háganme favor!, una cocina que puede calentar alimentos aún después de una guerra nuclear, como si tras un conflicto de ese destructivo, mortífero nivel aún quedara vivo el presidente estadounidense y, peor aún, se pusiera a comer (esto más bien recuerda a los plots hollywoodenses en donde la figura presidencial es lo más importante en una invasión militar o extraterrestre y se le debe de mantener con vida cueste lo que cueste).
Pero mientras Gates ha suprimido varios programas, el desarrollo de otros armamentos ha visto incrementado su presupuesto, como es el caso de los aviones militares F-35, considerados vitales para los bombardeos en Irak o Afganistán. Su presupuesto para fabricarlos pasó de 6800 millones de dólares (mdd) a 10400 mdd, un alza del 53%. Otro concepto que ha subido muchísimo su presupuesto es el de los vehículos blindados denominados MRAPs (mine-resistant, ambush-protected, o sea, vehículos resistentes a las minas y a las emboscadas), considerados por Gates como vitales en los ataques con minas o bombas ligeras, pues su resistencia los hace soportar la mayoría de los ataques de ese tipo y de los cuales, por cierto, no se enteró por sus subalternos, sino porque un día leyó sobre esos vehículos en un artículo de la publicación USA Today. Había hasta hace dos años muy pocos de esos vehículos, pues los que se usaban eran los famosos Humvees, con blindaje ligero, que cuando eran atacados, generalmente eran destruidos y sus ocupantes, soldados estadounidenses, casi todos morían o resultaban mortalmente heridos. Gates detectó esa situación y ordenó una sustancial alza en la fabricación de MRAP’s, a 1000 vehículos mensuales a partir de 2008. así que fue prioritario producir miles de esos vehículos a un promedio de medio millón de dólares cada uno, un costo enorme, por supuesto, que implicó una inicial inversión del Pentágono de 25,000 mdd (equivalente a las remesas enviadas a México este año por los paisanos que trabajan aún en EU). Por supuesto que si la idea de Gates fue sólo la de dotar de mejores vehículos blindados a los soldados estadounidenses, también implicó un excelente beneficio para la industria armamentista, ya que aquí la principal agraciada fue una empresa casi desconocida, Force Protection, pero que gracias al modelito de MRAP que diseñó, el cual era el que justo conoció Gates a través de USA Today, se fue a las nubes, y luego de casi haber vendido unos cuantos blindados y casi quebrar, por estos días ha entregado 2236 vehículos a un costo de nada menos que ¡1300 millones de dólares!, gracias a los cuales ya hasta cotiza en la bolsa de valores y sus acciones son muy buscadas por ávidos inversionistas en busca de ganancias fáciles. Le sigue Internacional Military and Government, que ha vendido 1975 vehículos en 1000 mdd; Armor Holdings, que ha vendido 1174 blindados en 518.5 mdd; BAE Systems, que ha vendido 929 vehículos en 484.9 mdd; Protected Vehicles Inc., que vendió 64 blindados en 37.4 mdd; Hoscos Truck, que vendió 104 en 30.6 mdd y por último General Dynamics, que sólo ha vendido 24 blindados en 11 mdd. Pero no sólo eso, sino que el efecto multiplicador que tan gran cantidad de vehículos genera, ha también beneficiado al sector siderúrgico, pues se han requerido 21,000 toneladas mensuales de acero de alta resistencia balística, así como otros productos, tales como las llantas especiales que llevan los blindados, y que únicamente fabrica la empresa Michelin, la cual sólo hacía 1000 por mes, pero tuvo que subir la producción a 17,000 llantas mensuales, que aunque mereció un gran esfuerzo de su parte, se compensa con los millones de dólares de ganancias que la súbita demanda de blindados ha ocasionado.
Así que, como se ve, muchas empresas le han entrado al gran negocio que ha promovido Gates, tanto directa, como indirectamente, con tal de que los soldados estadounidenses no sigan, es la justificación, muriendo en las constantes emboscadas y minas que sus vehículos encuentran por docenas en los caminos por donde circulan de los invadidos países de Irak y Afganistán. Hay alrededor de 13,000 MRAP’s actualmente tanto en Irak, como en Afganistán. Así que no sólo se han salvado vidas, sino que ha sido parte del plan de reactivación económica emprendido por Obama, quien ha enfatizado que la industria militar estadounidense sigue siendo vital para los EU, no solamente por las cuestiones de dominación que aquélla implica, sino que financieramente los 500,000 mdd que se gastan en promedio al año, proveen cientos de miles de empleos, así como el que se mantenga a flote el aparato bélico con el que EU pretende seguir dominando al mundo, como ya señalé antes.
Otra arma que ha recibido una gran atención por parte de Gates es un satélite llamado Advanced Extremely High Frequency Satellite, desarrollado por Lockheed Martin y Hughes Space and Communications Company, al que se dedicaron inicialmente para su desarrollo 500 mdd anuales y ahora se le reasignaron 2300 mdd, 360% de incremento, que se supone que evita que las comunicaciones militares y de todas las operaciones invasivas del ejército estadounidense no se saturen, ni se colapsen.
El P-8 Poseidon fabricado por la división militar de la empresa Boeing, Boeing Integrated Defense Systems, es un avión al que se asignaron 1200 mdd y ahora se le dedicarán 2900 mdd, 142% de incremento. Este aparato se supone que es muy útil para vigilar y atacar tanto objetivos aéreos, así como submarinos, pues tiene muy “sofisticada” tecnología para rastrear las posibles amenazas.
Por último, está el destructor Aegis, del que existen 62 embarcaciones, al muy módico costo cada uno de 1100 mdd, 34 de las cuales fueron construidas conjuntamente por las empresas militares General Dynamics y Bath Iron Works, y 28 fabricadas por Northrop Grumman Ship Systems e Ingalls Shipbuilding. En proporción a los otros armamentos, el Aegis recibió muy especial atención por parte de Gates, ya que tenía asignados apenas 200 mdd y ahora se le dieron 3000 mdd, ¡1490% de incremento! Esta embarcación militar se supone que puede atacar con gran precisión, alcance y poder objetivos, tanto en tierra, como en aire, y en el mar, ya que está armada hasta los dientes, entre misiles Tomahawk, MK-41… torpedos Mark 32, MK-46… metralletas, cañones, misiles balísticos… ¡toda una joya de la mortífera ingeniería militar estadounidense!
Pero la estrella de todo este conjunto de armas de destrucción masiva de “nueva generación” es una superbomba antibunkers conocida como Massive Ordnance Penetrador (penetrador artillado masivo), MOP, que es un monstruoso artefacto explosivo que mide seis metros de largo y pesa 13.6 toneladas, desarrollado conjuntamente por Northrop Grumman, Lockheed Martin y Boeing (como se ve, entre algunas de las grandes empresas militares se reparten el botín). Está equipado con 2700 kilogramos de explosivos y es capaz de penetrar hasta 60 metros en búnkers hechos de concreto reforzado de mediana resistencia, hasta 8 metros en aquéllos hechos de concreto reforzado de alta resistencia o puede abrirse paso hasta 40 metros en estratos rocosos. Hace poco el Pentágono urgió al congreso estadounidense para que destinara fondos de emergencia para el desarrollo del MOP por 88 millones de dólares, citando una “Necesidad Operacional Urgente (UNO, urgent operacional need). Y todo indica que la tal urgente necesidad es la de contar en unos pocos meses con esa monstruosa bomba que pueda destruir las instalaciones nucleares de Irán, país que se sospecha que está desarrollando bombas nucleares. Con el MOP, señalan sectores de inteligencia militar y, claro, el mismo Gates, podrían destruirse los complejos iraníes que existen en Natanz y el que se está terminando cerca de la ciudad sagrada de Qom, en caso de que, en efecto, se compruebe que Irán cuenta con un programa para fabricar bombas nucleares. Y si Irán está o no desarrollando armas nucleares, no está claro, pues se ha venido resistiendo a que la agencia de la ONU encargada de que los países fuera del club de poseedores de armas nucleares no las posean, la IAEA, realice una revisión de sus instalaciones las que, insiste ese país, son solamente para usos pacíficos, pero sospecho que así es. Y de todos modos si Irán está desarrollando armas nucleares, a fin de cuentas serán no para de momento emplearlas, por fortuna – cuando los países poseedores de ojivas nucleares las empleen, será el fin de nuestro planeta –, sino para disuadir a que países como EU tramen una invasión, como hicieron en Irak, pues si este país hubiera poseído ojivas nucleares, no se habría atrevido EU a atacarlo, que es justo lo que pasa con Corea del Norte, país que ya posee algunas bombas nucleares y es por ello que EU no se ha aventurado a tocarlo ya.
Y también Gates ha solicitado al congreso casi 52 millones de dólares para que la empresa McDonnell Douglas acondicione un bombardero B-52 para que pueda transportar la explosiva, pesada mole hasta el sitio en donde se arrojaría. Y con el MOP podrían destruirse, según sus diseñadores, tanto los búnkers iraníes, como los norcoreanos para evitar que más países se hagan de bombas nucleares. ¡Pues vaya con tan “éticas” consideraciones, proviniendo de países como EU o Inglaterra, que poseen decenas de ojivas nucleares que podrían destruir varias veces el planeta! Además me parece irresponsable que se empleara el MOP contra instalaciones nucleares tanto iraníes, como norcoreanas, pues al destruirse, seguramente detonarían explosiones del material radioactivo que hubiera en Irán o de las bombas nucleares norcoreanas, lo que provocaría desastres ecológicos por las nubes radioactivas que se esparcirían. Pero además en el caso de Corea del Norte, no imagino que se esperaría con los brazos cruzados a ser bombardeada con MOP’s, sino que respondería de inmediato, lo que quizá llevaría al inicio de un conflicto termonuclear de mortíferas consecuencias para todo el planeta. ¡Esos son los grandes planes del beligerante Gates, auspiciados, claro, por el premio Nóbel de la paz de este año, el señor Barack Obama!


Adán Salgado Andrade (especial para ARGENPRESS.info)

Recientemente se le concedió un muy polémico y cuestionable “premio Nóbel por la paz” al presidente estadounidense Barack Obama, basándose el mercantilizado premio simplemente en los “deseos” de Obama por librar al mundo de las armas nucleares.

Sin embargo, ese muy débil y alejado deseo contrasta con lo que Obama ha dejado de hacer o está haciendo no por la paz, sino en contra de ella. Escribí a finales del año pasado un artículo titulado “El silencio de Obama” (consultarlo en mi blog: adansalgadoandrade.blogspot.com) en el cual daba cuenta de que ante la masacre de palestinos una vez más por los belicistas israelíes en la franja de Gaza en los últimos días de diciembre, Obama nada dijo, pretextando que aún no tomaba posesión del cargo y que, en todo caso, “era la culpa de los terroristas de Hamas por provocar a los israelíes”, estas poco afortunadas declaraciones, a pesar de que hubo cientos de muertos, así como hospitales, edificios, avenidas y escuelas bombardeadas y un sin número de atrocidades que por estos días la ONU está dando cuenta que cometieron los soldados judíos (emplearon a civiles palestinos como escudos humanos o los mataban indiscriminadamente, pretextando que cualquiera podía ser su “enemigo”, además de que Israel sigue bloqueando el comercio, incluso de alimentos o les restringe o deja sin agua a miles de palestinos que habitan Gaza).
En un artículo más reciente, “Armas, corrupción y el big Money”, además doy cuenta de que la “estrategia” para librarse de los talibanes en Afganistán, otro invadido país por parte de EU, tiene como resultado que frecuentemente decenas de civiles inocentes sean el blanco de los ataques de la OTAN y de EU contra supuestos blancos enemigos, que resultan falsos y que provocan la absurda muerte de tales civiles, ante lo cual, en lugar de rectificar esa fallida estrategia, Obama ha aceptado enviar muchas más tropas (13,000 soldados se ha aprobado recientemente que se dirijan a ese país, aunque Obama piensa que será necesario enviar hasta 40,000 soldados extras) para “garantizar la paz” allí.
Pero además se ha informado que la mayoría de los soldados estadounidenses que están activos en Afganistán, están bastante desmoralizados y deprimidos, pues declaran que ni saben por qué están luchando en ese país, cuál es el objetivo, si hay verdaderos avances, ni a quién están combatiendo, porque los talibanes generalmente los atacan mediante minas o bombas colocadas a un lado de los caminos, pero pocas veces cuerpo a cuerpo. Tan deprimidos están, que muchos se han estado suicidando desde el año pasado, durante el cual 140 soldados estadounidenses se quitaron la vida. En el presente año, hasta octubre se han suicidado 134 y se espera que la cifra supere a los suicidios del año pasado (irónicamente, por estos días hubo una matanza en una base militar estadounidense, Fort Hood, perpetrada por un psiquiatra, el señor Malik Nadal Hasan, un musulmán nacido en Jordania, pero nacionalizado estadounidense. Hasan atendía justamente a los soldados con fuertes depresiones que regresaban de Afganistán, y sus historias seguramente influyeron en el desequilibrio mental sufrido por el desesperado psiquiatra a quien, por si eso no hubiera bastado, escuchar deprimentes historias, iba el ejército a enviarlo al frente afgano. Y es justamente en esa base en donde llegan los deprimidos soldados estadounidenses de Afganistán a recibir “tratamiento psiquiátrico”).
“Esto se está convirtiendo en otro Vietnam”, ha declarado un sacerdote de uno de los cuarteles militares estadounidenses, en referencia a que en Afganistán no hay objetivos claros por los cuales pelear y que la guerra se está alargando inútilmente. Además, esa “guerra” se está volviendo tan costosa e inútil, que más del 60% de los estadounidenses están en contra de que EU siga entrometido allí, además de que muchos opinan que es una causa perdida, pues las guerrillas talibanes, lejos de estar derrotadas y desanimadas, se refuerzan mucho más con cada día que transcurre. Esto puede verse en opiniones de los estadounidenses comunes como la siguiente: “Si nuestras tropas están deprimidas, extrañan su hogar y no les interesa pelear, no es su culpa, sino que es porque las están obligando a pelear una guerra sin una causa justificable y sin una política o estrategia claras. Ninguno de los objetivos por los cuales se invadió Afganistán, han sido cumplidos. Está en su noveno año, y el belicismo de las guerrillas locales ha aumentado en lugar de haber disminuido. Ni los talibanes ni Al-qaeda han podido ser derrotados. El supuesto presidente Karzai, es uno de los más impopulares líderes, pero se le sostiene, a pesar de que la reciente elección estuvo llena de fraudes y trampas. Se le está dando apoyo al grupo minoritario que no pertenece a los pashtun, mientras que a los pashtun se les hace a un lado sólo porque India lo quiere así (claro, pues si se apoyaran a los pashtuns, India correría el riesgo de que una parte de Afganistán se uniera a Pakistán, enemigo natural de aquélla, donde también hay pashtuns, lo que lo reforzaría en gente y territorio, además de que también se acrecentaría el sentimiento musulmán anti-hindú en toda la región y en Kashmir, el territorio administrado por India, Pakistán y China, apoyando a las guerrillas musulmanas jihadistas que allí operan, las que luchan por apoderarse del territorio administrado por India justamente en Kashmir). Y a pesar de que es una guerra que no se puede ganar, Obama trata de reforzar la derrota. Ni el aumento de tropas, o más misiles y menos hombres, servirán, pues todo se ha movido a favor del Talibán (por ello es que hasta se ha sugerido que se les pague a los guerrilleros talibanes un salario, con tal de que dejen las armas). El ejército es inepto e incapaz de combatir al Talibán. Y es cosa de tiempo antes de que comencemos a presenciar indisciplina, suicidios y desórdenes mentales (lo que está ocurriendo ya entre los estadounidenses, como menciono antes) entre las tropas comandadas por la coalición de la OTAN y EU. Y antes de que eso suceda, es mejor retirarse después de haber logrado un acuerdo con el Talibán”. Como puede verse, este generalizado sentimiento de derrota, impotencia e inutilidad tiende a popularizarse, y a pesar de ello el presidente de la paz, Obama, insiste en que más tropas de su país se estacionen allí. Lo irónico es que quizá se tuviera que llegar, en efecto, a un acuerdo con el Talibán, al que se derrocó luego de los muy sospechosos derribamientos de las torres gemelas, dado que todo parece indicar que se ha ido reforzando su presencia con los años en Afganistán.
Además, Obama está apoyando, en el caso de Honduras, país en donde las obscuras fuerzas reaccionarias propiciaron un golpe de Estado contra el presidente Manuel Zelaya, el que se realicen elecciones auspiciadas por el golpista Roberto Micheletti y que EU reconocerá al gobierno que pueda surgir de tan fraudulenta acción. Y puesto que el golpe de Estado se apoyó en el mercenario ejército hondureño – entrenado, por cierto, en bases militares estadounidenses –, sería otra prueba más de que Obama está dando vía libre al armamentismo en el mundo, con tal de proteger los intereses estadounidenses, también muy enraizados en Honduras.
Y si ya de por sí no bastara con apoyar el golpe militar en Honduras, o el polvorín en que se ha convertido a Afganistán, en donde, como dije, el mayor número de muertos es entre civiles inocentes, para que se pusiera en duda el que realmente Obama haya merecido el premio Nóbel de la paz, además está permitiendo veladamente que el Pentágono, dirigido por el muy beligerante secretario de la defensa Robert Gates, se rearme y sea la punta de lanza de la nueva estrategia de dominación estadounidense basada en un mayor belicismo, sobre todo ahora que EU está perdiendo de alguna manera el liderazgo económico a nivel mundial, así que si no domina a través de sus devaluados dólares y sus quebradas corporaciones y bancos, lo hará mediante el empleo intensivo y extensivo de la fuerza, como veremos.
A sus 66 años, el republicano Gates ha estado inmerso en la política, sobre todo en cuestiones militares y de seguridad, desde 1966, en que la CIA lo contrató para sus labores de inteligencia. Luego, en 1967, la Fuerza Aérea Estadounidense lo reclutó para que realizara labores de entrenamiento a tropas dedicadas a la operación de misiles interbalísticos. En 1969 de nuevo se unió a la CIa y en 1974, durante la presidencia de Richard Nixon, fue contratado para formar parte del Consejo Nacional de Seguridad. Luego ha pasado de ser asesor, director de la CIA, hasta secretario de la defensa de George W. Bush, cargo que le fue ratificado con Obama.
El lema de Gates, en cuanto a las cuestiones militares se refiere, es “El ejército necesita pelear en las batallas presentes no en las batallas futuras”. Esto porque el beligerante secretario dice que no tiene caso estar planeando cómo se pelearán las batallas en el futuro si no se están ganando las batallas de hoy día. Eso lo ha declarado porque en Irak es evidente que Estados Unidos no ha ganado la guerra, como tampoco ha sucedido en Afganistán, como ya mencioné arriba. Gates ha dicho de su persona que “Me he referido a mí como el secretario de guerra porque estamos en guerra”. Y del Pentágono declara: “Este es un departamento que sólo se la pasa planeando como hacer la guerra. No está organizado para ir a la guerra. Y justamente es lo que estoy tratando de hacer”. Y vaya si el señor ha tomado muy en serio su guerrero papel, pues hasta en el caso de la violencia que se ha desatado en México, por ejemplo, por el supuesto “combate al narcotráfico”, que han emprendido los mal administradores panistas, ha dicho que “Estados Unidos quiere incrementar la asistencia militar que provee a México para su lucha contra el tráfico de drogas. La ayuda podría ser suministrando equipo militar, entrenamiento, labores de inteligencia, con tal de ayudar a las autoridades en su lucha contra los bien armados y organizados narcotraficantes” (ver mi artículo “La muy oportuna descomposición del Estado mexicano, pretexto para militarizar y recrudecer la represión gubernamental”). Y Gates actúa acordemente con su inherente beligerancia, pues sus cintas favoritas son todas aquellas que tengan que ver con violencia y lo militar. Ejemplos recientes son “Transformers” y “Wolverine”, de las que declara el secretario que “La verdad salí muy contento luego de verlas”. Si, quizá porque en ellas en muchas escenas se hace alarde del poderío militar estadounidense, aunque éste resulte inútil frente a superhéroes y robots gigantes.
Pero además su estrategia puramente guerrera está haciendo énfasis en un fuerte impulso a la aún muy importante industria armamentista estadounidense, ya que está priorizando proyectos que, según él, son primordiales, en tanto que está dejando atrás o cancelando otros que, considera, no son estratégicos, ni siquiera para el futuro. Y a diferencia de Donald Rumsfeld, el anterior secretario de la defensa, quien decía que el ejército de EU debía combatir con las armas que tuviera, no las que deseara, Gates se ha propuesto combatir con las armas que, afirma, verdaderamente se necesitan.
Y de plano cortó fondos o los redujo bastante en casos como los aviones de combate F-22, que aunque son muy modernos y pueden evadir los radares, en guerras como las de Afganistán o Irak son casi inútiles, debido a que contra insurgentes o “terroristas” son de poco valor, pues son objetivos huidizos, difíciles de localizar. Decidió Gates presionar al congreso para que no se compraran más de la cuota normal de 187 aparatos, a pesar de que la Fuerza Aérea de EU deseaba aumentar sus cantidad. En lugar de esos aparatos, Gates decidió que era mejor adquirir más Predators, aviones robots que pueden vigilar y al mismo tiempo bombardear objetivos enemigos (de hecho esos aparatos se emplean ya en la frontera entre México y EU para vigilar a los muy peligrosos ilegales mexicanos). Además de que son más baratos, sirven más para las necesidades de combate en Irak y Afganistán, y evitan muertes de soldados, pues son robotizados, sentenció Gates cuando se opuso terminantemente a que más F-22 fueran adquiridos (así se le acabó uno de sus grandes negocios a Lockheed Martin, la compañía que fabrica los F-22).
No sólo eso, sino que también Gates se opuso terminantemente a proyectos que, desde su óptica, no valían el presupuesto que se les había asignado. Y decidió dejar fuera proyectos como un Boeing 747, diseñado para disparar en el aire misiles enemigos mediante un potente láser (al aparato le tomó 13 años de desarrollo hacer su primera prueba, la que no fue de todos modos tan satisfactoria). También eliminó del presupuesto un conjunto de satélites que podían, según sus diseñadores, “comunicarse” entre ellos, pero que tampoco habían probado ser funcionales. Otro programa futuro que Gates suprimió es el llamado Future Combat Systems, un ambicioso plan que pretendía gastar 160,000 mdd con tal de equipar a los soldados de sofisticados armamentos hacia el 2011, pero que tampoco convenció a Gates de su utilidad, pues prefiere que las guerras se ganen hoy y no en el futuro, como ya señalé antes. Y quizá el más cómico proyecto que eliminó, tal vez porque realmente se siente como algo absurdo y fútil, es un costosísimo helicóptero presidencial equipado con, ¡háganme favor!, una cocina que puede calentar alimentos aún después de una guerra nuclear, como si tras un conflicto de ese destructivo, mortífero nivel aún quedara vivo el presidente estadounidense y, peor aún, se pusiera a comer (esto más bien recuerda a los plots hollywoodenses en donde la figura presidencial es lo más importante en una invasión militar o extraterrestre y se le debe de mantener con vida cueste lo que cueste).
Pero mientras Gates ha suprimido varios programas, el desarrollo de otros armamentos ha visto incrementado su presupuesto, como es el caso de los aviones militares F-35, considerados vitales para los bombardeos en Irak o Afganistán. Su presupuesto para fabricarlos pasó de 6800 millones de dólares (mdd) a 10400 mdd, un alza del 53%. Otro concepto que ha subido muchísimo su presupuesto es el de los vehículos blindados denominados MRAPs (mine-resistant, ambush-protected, o sea, vehículos resistentes a las minas y a las emboscadas), considerados por Gates como vitales en los ataques con minas o bombas ligeras, pues su resistencia los hace soportar la mayoría de los ataques de ese tipo y de los cuales, por cierto, no se enteró por sus subalternos, sino porque un día leyó sobre esos vehículos en un artículo de la publicación USA Today. Había hasta hace dos años muy pocos de esos vehículos, pues los que se usaban eran los famosos Humvees, con blindaje ligero, que cuando eran atacados, generalmente eran destruidos y sus ocupantes, soldados estadounidenses, casi todos morían o resultaban mortalmente heridos. Gates detectó esa situación y ordenó una sustancial alza en la fabricación de MRAP’s, a 1000 vehículos mensuales a partir de 2008. así que fue prioritario producir miles de esos vehículos a un promedio de medio millón de dólares cada uno, un costo enorme, por supuesto, que implicó una inicial inversión del Pentágono de 25,000 mdd (equivalente a las remesas enviadas a México este año por los paisanos que trabajan aún en EU). Por supuesto que si la idea de Gates fue sólo la de dotar de mejores vehículos blindados a los soldados estadounidenses, también implicó un excelente beneficio para la industria armamentista, ya que aquí la principal agraciada fue una empresa casi desconocida, Force Protection, pero que gracias al modelito de MRAP que diseñó, el cual era el que justo conoció Gates a través de USA Today, se fue a las nubes, y luego de casi haber vendido unos cuantos blindados y casi quebrar, por estos días ha entregado 2236 vehículos a un costo de nada menos que ¡1300 millones de dólares!, gracias a los cuales ya hasta cotiza en la bolsa de valores y sus acciones son muy buscadas por ávidos inversionistas en busca de ganancias fáciles. Le sigue Internacional Military and Government, que ha vendido 1975 vehículos en 1000 mdd; Armor Holdings, que ha vendido 1174 blindados en 518.5 mdd; BAE Systems, que ha vendido 929 vehículos en 484.9 mdd; Protected Vehicles Inc., que vendió 64 blindados en 37.4 mdd; Hoscos Truck, que vendió 104 en 30.6 mdd y por último General Dynamics, que sólo ha vendido 24 blindados en 11 mdd. Pero no sólo eso, sino que el efecto multiplicador que tan gran cantidad de vehículos genera, ha también beneficiado al sector siderúrgico, pues se han requerido 21,000 toneladas mensuales de acero de alta resistencia balística, así como otros productos, tales como las llantas especiales que llevan los blindados, y que únicamente fabrica la empresa Michelin, la cual sólo hacía 1000 por mes, pero tuvo que subir la producción a 17,000 llantas mensuales, que aunque mereció un gran esfuerzo de su parte, se compensa con los millones de dólares de ganancias que la súbita demanda de blindados ha ocasionado.
Así que, como se ve, muchas empresas le han entrado al gran negocio que ha promovido Gates, tanto directa, como indirectamente, con tal de que los soldados estadounidenses no sigan, es la justificación, muriendo en las constantes emboscadas y minas que sus vehículos encuentran por docenas en los caminos por donde circulan de los invadidos países de Irak y Afganistán. Hay alrededor de 13,000 MRAP’s actualmente tanto en Irak, como en Afganistán. Así que no sólo se han salvado vidas, sino que ha sido parte del plan de reactivación económica emprendido por Obama, quien ha enfatizado que la industria militar estadounidense sigue siendo vital para los EU, no solamente por las cuestiones de dominación que aquélla implica, sino que financieramente los 500,000 mdd que se gastan en promedio al año, proveen cientos de miles de empleos, así como el que se mantenga a flote el aparato bélico con el que EU pretende seguir dominando al mundo, como ya señalé antes.
Otra arma que ha recibido una gran atención por parte de Gates es un satélite llamado Advanced Extremely High Frequency Satellite, desarrollado por Lockheed Martin y Hughes Space and Communications Company, al que se dedicaron
Starbucks expande negócio e abre mais dois cafés no centro de Lisboa. O custo de um café

Por Ana Rita Faria

Um ano e um mês depois da entrada em Portugal e após várias aberturas de cafés em centros comercias na periferia da capital, a maior rede de cafetarias do mundo vai finalmente estrear-se no centro de Lisboa. A primeira loja abre já no dia 9 de Dezembro nos Armazéns do Chiado e, no início de 2010, segue-se uma segunda unidade na zona da Baixa, que será o primeiro café verde do grupo em Portugal e o terceiro na Europa. "Andámos sempre a tentar encontrar uma loja de rua no centro e agora encontrámos uma que não é ainda a ideal, pois está integrada num centro comercial, embora tenha entrada através da Rua Garrett", revela Luís Rocha e Mello, director de operações da Starbucks em Portugal. Com 359 metros quadrados, esta unidade irá incorporar já alguns sistemas amigos do ambiente, que irão nomeadamente reduzir o consumo de água em 40 por cento e o de luz em 30 por cento. Contudo, a primeira loja realmente verde da empresa só abrirá portas em 2010, na zona da Baixa lisboeta. A Starbucks Portugal passou recentemente para as mãos do grupo espanhol VIPS, que, até Setembro, conduzia os negócios da empresa no mercado ibérico através de uma joint-venture com a casa-mãe da Starbucks nos EUA. Com 75 lojas no país vizinho, a Starbucks tem já quatro cafés no território nacional, nos centros comerciais Alegro (Alfragide), Almada Fórum e Dolce Vita Tejo (Amadora) e em Belém. Mas as perspectivas são de continuar a crescer. "Esperamos chegar ao final do próximo ano com oito ou nove lojas abertas", adianta Rocha e Mello. "Era essencial estarmos no centro da cidade para dar a conhecer melhor a marca e tudo o que rodeia a experiência Starbucks", revela Rocha e Mello. Para o director de operações, o facto de o preço de um café expresso estar acima da média nos seus espaços - 1,20 euros - não tem afastado clientela. "As pessoas percebem que não só o ambiente e o café são de qualidade como estão a contribuir para melhorar as condições de vida das comunidades de produtores de café", afirma. A Starbucks é actualmente o maior comprador de café proveniente de comércio justo no mundo e, segundo Rocha e Mello, "só não tem 100 por cento do seu café com este "selo" porque não há café certificado suficiente que possa fornecer todas as lojas da rede". Contudo, a empresa criou o seu próprio sistema de certificação à luz dos princípios do comércio justo - o "Shared Planet and Fairtrade Certified" - e prevê que todos os expressos e bebidas à base de café vendidas nos seus estabelecimentos estejam certificados até Março de 2010. Com isso, passará a contribuir com 2,8 milhões de euros para os produtores de café.1,20 O custo de um café expresso é de 1,20 euros, mas o responsável da marca em Portugal diz que o preço não tem afastado a clientela.


 


Reflexões de organizações de Comércio Justo a propósito do artigo acima.


É deveras emocionante ler no artigo publicado no jornal Público de 4/11/2009 que uma corporação transnacional como a Starbucks está preocupada em “melhorar as condições de vida das comunidades de produtores de café”. Entretanto, há que esclarecer que cinco corporações multinacionais - Kraft, Nestlé, Procter & Gamble, Sara Lee e Tchibo - dominam o mercado mundial do café. As duas corporações mais influentes, Kraft e Nestlé, controlam 49% da industria de torrefação, cifra que alcança os 69% se somarmos as outras três grandes corporações. (Daviron e Ponte 2005). O valor agregado do café concentra-se no final da cadeia comercial. Um punhado de importadoras e torrefadoras controla, assim, mais de 78% dos benefícios económicos provenientes do café, enquando no início da cadeia 25 milhões de familia de cafeicultores só recebem uma parte ínfima dos ganhos (Daviron e Ponte, 2005; Fitter e Kaplinsky, 2001). Do lado do consumo, as grandes corporações são as principais vendedoras de café tostado e do lado da produção são as maiores compradoras de café verde. O comércio do café está subordinado a um sistema em que cinco corporações transnacionais regulam as transacções comerciais entre milhões de produtores e milhões de consumidores de café. Tomemos como exemplo a Etiópia que sofre da mesma maldição que afecta os países do Sul, produtores de ouro ou petróleo. Muitos dos países produtores de café estão entre os mais pobres. Este país, berço do café, é uma das civilizações mais antigas do mundo. Os grãos da variedade Sidamo, provincia da Etiópia,podem ser comprados até 25 USD a libra na Starbucks. Não obstante, os 1,2 milhões de pequenos produtores etíopes de café recebem menos de 2 USD ao dia. O rendimento per capita deste país é de cerca de 83 €: um quinto da média da África Subsahariana (Banco Mundial 2007). A Starbucks, num passado recente, manteve um diferendo prolongado com o governo da Etiópia a propósito do uso do nome Sidamo nos EUA. Arrogou-se durante muito tempo em ser a detentora exclusiva deste nome. Isto, claro, sempre com objectivos “filantrópicos”. Finalmente a Etiópia ganhou os direitos de registo da sua marca de café Sidamo nos Estados Unidos. A Etiópia foi forçada a esperar anos para conseguir o certificado, mas o Serviço de Registro de Marcas e Patentes dos EUA confirmou que a Etiópia é a única proprietária da marca registada de café Sidamo. Podemos ler também no artigo em questão que a Starbucks “só não tem 100 por cento do seu café com este selo porque não há café certificado suficiente que possa fornecer todas as lojas da rede”. Como diria um provérbio cristão “faz o bem e não olhes a quem”. Porquê então depender da certificação? Sendo o interesse realmente nobre, o de melhorar as condições de vida das comunidades, então decida a Starbucks, de forma unilateral, independemente de certificações, passar a pagar substancialmente melhor a todos os produtores a quem compra os grãos de café. Os consumidores já pagam 1,20 euros por um café expresso! Não acreditamos que a real intenção seja explorar um nicho de mercado destinado a pessoas com um maior poder de compra, ávidos de tranquilizar as suas consciências e “dormirem tranquilos ao beberem um café do comércio justo”. Tampouco achamos que, para estas empresas, o Comércio Justo não seja um movimento social e sim uma oportunidade de melhorar a sua imagem pública fazendo com que a marca inteira pareça socialmente responsável à custa de um selo (certificação) na minoria dos seus produtos... Já agora, acometidos por esta onda de boa-vontade “humanista” poderiam ser absolutamente transparentes quanto às suas contas e mostrar aos produtores e publico em geral quais são as margens que praticam, quanto investem em publicidade e marketing à custa do argumento da “ajuda ao produtores” e da própria exploração da imagem destes. Quanto pagam pela certificação? Quanto ganha um auditor que se desloca (quando se desloca) até às comunidade produtoras para impor normas criadas nos gabinetes dos países ricos sem ter em conta as especificidades locais, numa relação de cima para baixo e, também, como é feita a construção do preço de venda ao publico? Ainda varridos por este “tsunami” de boa-bondade poderia a Starbucks permitir que os produtores participassem igualitariamente nas decisões da corporação e consequentemente nos lucros. Que pudessem os produtores criar condições de participar, também tecnicamente, no processo de transformação dos grãos, sector para onde se destina a fatia maior dos lucros e daí colher benefícios económicos. Que os seus trabalhadores, nas lojas, pudessem igualmente participar nas decisões e lucros desta corporação transnacional e tivessem emprego estável. Todas estas práticas também fazem parte da construção de um Comércio mais Justo. Sabemos que, felizmente, estas sinceras preocupações com os pobres e a fome no mundo e com a preservação do meio-ambiente não são exclusivas da Starbucks, mas sim extensíveis a muitos grandes grupos transnacionais e nacionais. É em função destas práticas da dita “responsabilidade social corporativa” que vivemos num planeta cada vez melhor: nos últimos dois anos a fome no mundo passou de 850 milhões de seres humanos para 1.020 milhões, que o aquecimento global atinge níveis inéditos, que os fluxos migratórios aumentam, enfim que a concórdia universal está prestes a ser alcançada. Do lado de cá da cadeia procura-se que deixemos de ser cidadãos para sermos consumidores bem comportados, acríticos, passivos e caridosos. Quando vemos um pato a flutuar num rio já se diz “parece um pato de banheira” e para elogiarmos uma planta dizemos “parece uma flor de plástico”.


Mó de Vida – Cooperativa de Comércio Justo (Almada)
Ecos do Sul – Loja do Mundo (Amadora)

Socialismo do século XX
Emir Sader - Agência Carta Maior

A queda do Muro de Berlim e o fim do campo socialista decretaram o término do longo período inaugurado com a revolução russa de 1917 e do socialismo do século XX. O socialismo, que havia passado a, pela primeira vez, fazer parte da atualidade histórica da humanidade, praticamente desapareceu da agenda contemporânea, há duas décadas. A China optou por uma via de economia de mercado, Cuba tratou de se defender de retrocessos ingressando a seu “período especial”, o Fórum Social Mundial surgiu para lutar contra o neoliberalismo.

Essa virada histórica – acompanhada pela passagem de um ciclo longo expansivo a um recessivo da economia capitalista, de um modelo regulador a um modelo neoliberal, - representou, ao mesmo tempo, a transição de um mundo bipolar a um mundo unipolar sob hegemonia imperial norteamericana. Mudanças todas de caráter regressivo, que alteraram de forma radical a correlação de forças mundial a favor das forças conservadoras.

Se esgotava um modelo de socialismo, que se caracterizou por promover a estatização dos meios de produção, a partir da expropriação da burguesia privada, e não da socialização dos meios de produção, produzindo uma imensa burocracia que dirigia os Estados de economia centralmente planificada. Seu esgotamento se deu tanto pela falta de democracia e de participação política dos trabalhadores, como pela falta de dinamismo econômico, que os relegou a não superar os ritmos de desenvolvimento econômico do capitalismo, como a depender das economias capitalistas, de forma subordinada.

Nunca um sistema daquela dimensão havia desmoronado por um processo de auto degeneração, a ponto de praticamente não apresentar nenhum tipo de resistência interna, adaptando-se de forma suave à restauração do capitalismo nos seus territórios. O que revelava os efeitos desagregadores que a ideologia ocidental tinha tido sobre o sistema, especialmente sobre seus estratos dirigentes, levando ao que os próprios ideólogos norteamericanos não esperavam – sua autodissolução.

O modelo do socialismo do século XX foi um modelo de socialismo de Estado – como alguns autores o caracterizaram. Buscou, através da ação determinante do novo Estado, o apoio para tentar recuperar a distância em relação ao capitalismo ocidental, decorrente das rupturas com esse sistemas terem se dado na periferia atrasada e não no centro do sistema, como previa Marx. Para Lênin se tratava apenas de uma mudança temporária de roteiro, até que a revolução em um país da Europa ocidental pudesse resgatar a Rússia do seu atraso. O fracasso da revolução alemã – o país em que mais se condensavam as contradições depois da sua derrota na primeira guerra – praticamente condenou a Revolução Russa ao isolamento. A partir daí, as rupturas seguintes se deram na direção oposta, da periferia profunda – China, Vietnã, Cuba.

Nas palavras de Lênin, era mais fácil tomar o poder nos países mais atrasados, mas sumamente mais difícil construir o socialismo. Reduzida ao seu isolamento, a Rússia optou pelo “socialismo em um só país”, em um país atrasado, afetado pelo cerco dos países ocidentais, pela guerra civil interna, posteriormente pela invasão alemã. O modelo estatal foi uma decorrência disso, de buscar uma acumulação socialista acelerada, que dificultasse o bloqueio ocidental contra a URSS. Stalin optou pela expropriação maciça dos camponeses, que permitiu a industrialização acelerada dos anos 30 – e propiciou as condições de resistência e derrota diante do poderoso exército alemão – mas às custas da ferida agrária de que nunca se libertaria a URSS até seu final, e da destruição da democracia interna no partido.

O socialismo se reatualiza, pelas próprias mazelas do capitalismo, porque o socialismo é o anticapitalismo, a incorporação dos avanços econômicos, mas em um outro tipo de sociedade, que nega o caráter discriminatório e injusto do capitalismo, negando-o e superando-o em uma sociedade solidária. Enquanto houver capitalismo, haverá, mesmo que embrionariamente, um projeto socialista, que sempre precisa ser recriado, renovado, a partir dos balanços do capitalismo e do socialismo existentes.

O socialismo do século XXI, para chegar a existir, tem que partir do balanço de conquistas e erros do socialismo do século XX, se não quiser repetir sua trajetória.

©2004 MÓ DE VIDA COOP.